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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Argumento para filme de Kung Fú

 

humberto  o sousa

 

Outro dia estava discutindo com um amigo meu, o Nelsinho, sobre a babaquice de uma história que ele estava escrevendo, totalmente sem noção. Era sobre vampiros que começaria com esta pérola: “… e como uma gazela saltitante ele pulou sobre a sua vítima.”. Eu argumentei que um vampiro jamais se comportaria como uma gazela saltitante por mais viadinho que fosse, ele respondia que era para ser totalmente sem noção mesmo. Lembrei-me que também já havia escrito uma merda no mesmo estilo, então resolví colocá-la aqui, eu a acho divertida, espero que quem ler também goste.

 

Argumento para filme de Kung Fú


A história se passa na época do Imperador Qin.
Um de seus principais generais, Fúmanchu caiu em desgraça porque estava fumando muito ópio, e foi exilado no deserto de Gobi e lá se casou com uma princesa mongol chamada Ka Ba Soo.
O casal teve três filhos: Tii Fú, Lee Fú e o caçula, nascido na época das vacas magras, Sii Fú.
O pai adestra-os na arte da guerra tornando-os exímios espadachins.
Quando o jovem Sii Fú completa dezesete anos o pai adoece e vislumbrando a morte que se aproxima manda chamar os três filhos e lhes pede para viajarem à capital e se porem ao serviço do Imperador Qin, servirem-no com coragem e lealdade e resgatar a honra da fámilia. Dois dias após, o velho Fú morre.
Então os irmãos partem em uma jornada épica, lutando e derrotando salteadores de estrada, taberneiros ladrões e xanas sedentas.
Ao chegarem à capital notam que a fama os precedeu e são levados imediatamente ao palácio Imperial.
Em audiência com o Imperador informam-no do falecimento do pai e o seu último pedido, então este lhes propõe um teste: há na fronteira sul do império uma montanha há, em seu cume, uma caverna onde mora um dragão feroz, chamado Pu'm Long que assola as vilas da região, queima as plantações e sequestra todos os jovens abaixo de vinte anos, que nunca mais são vistos, se eles derrotarem-no serão admitidos no serviço das tropas imperiais, desde que não fumem ópio.
Partem em outra jornada épica, lutando e derrotando mais salteadores de estrada, mais taberneiros ladrões e duas vezes mais xanas sedentas.
Ao chegarem ao pé da montanha do dragão descobrem uma taverna, A Rosca Queimada, e resolvem comer algo, beber alguma coisa, descasarem e colherem informações.
O proprietário, atende a todas as necessidades dos herois, dando-lhes, inclusive a sua famosa rosca, mas aconselha que eles bebam o máximo possível para enfrentar Pu'm Long. Tii Fú desdenha do taberneiro, Lee Fú toma somente um jarro de bebida e somente Sii Fú aceita o conselho e toma meio tonel de vinho de arroz, ficando tão bêbado que os irmãos mais velhos tiveram que arrastá-lo montanha acima.
Ao chegarem no topo, avistaram, há uns trinta metros, a entrada negra e fedorenta, cheirando a peixe e a queijo gorgonzola, da gruta do dragão, então Tii Fú, por ser o mais velho, espada em riste, é o primeiro a atacar, mas não chegou a dar dez passos em direção ao buraco mal cheiroso e a espada quedou no chão, inerte, então ele dá meia volta e saí correndo a toda velocidade em direção ao sopé da montanha.
Então Lee Fú, o segundo mais velho, saca a espada, dá um grito furioso e parte para o ataque, conseguindo chegar até a entrada do fétido buraco, mas ao ter um vislumbre do dragão, sua espada amoleceu e apontou para o chão, então deu meia vota e seguiu seu irmão mais velho.
Sobrou então para o pobre Sii Fu, que de tão bêbado nem sacou a espada, iria enfrentar a fera no corpo a corpo mesmo. Depois de duas horas e meia de luta, marcada por ataques e recuos, idas e vindas, alternando ora ele por cima do dragão, ora por baixo, Pu'm Long soltou um longo suspiro e caiu desfalecido pelo cansaço e, só então, nosso heroi sacou a espada e cortou-lhe a cabeça, embrulhou em sua túnica, pegou o cavalo e galopou até a capital, entregando a cabeça ao Imperador.
Como recompensa recebeu a mão de uma das filhas do Imperador e uma província para governar.
É dai que vem o ditado: não existe dragão feio, você é que bebeu pouco.

sábado, 13 de agosto de 2011

Mal entendido

humberto o sousa

Claro que aquilo tudo era pura bobagem. Onde já se viu dizer que mulheres teriam direito a alguma coisa. Só não me levanto e vou dar uns tapas nesta dona porque sou educado. Pela aliança na mão esquerda deve ser casada, o marido desta vaca é um frouxo. Eu deveria é ir embora. Mas tudo bem fico e escuto esta conversa fiada.

Lá em casa o papo é outro. Primeiro foi a Djanira que começou a reclamar que estava insatisfeita sexualmente, eu não fazia gozar e tal, dei-lhe uma surra e coloquei ela na rua. Não sou homem de viver com vagabundas.

Depois a Vilma. Previdente, como sou, mantinha ela trancada em casa. Vá lá saber se ela era vagabunda que nem a outra? Belo dia cheguei e ela havia sumido, arrombou a janela e fugiu. Acertei, era vagabunda que nem a outra.

A última, a Socorro, parece que eu tinha finalmente acertado. Era do interior de Minas e veio para cá sozinha para trabalhar. Começamos a morar juntos e ela tinha como único objetivo me satisfazer e eu era feliz. Um dia cheguei em casa e ela estava lá no sofá segurando a mão de um rapaz. Não pensei duas vezes, tirei o revolver da cintura e matei os dois. No momento havia um carro de polícia passando, e ao ouvir tiros foram investigar, acabei preso em flagrante. Na delegacia aleguei defesa da honra. O delegado me mostrou então os documentos das “vitimas”, ele falava “vitimaas” com a boca cheia, e eles eram irmãos.

Não basta estar sendo julgado por um simples mal entendido ainda tenho que ficar ouvindo desaforos desta tal de promotora. Só não levanto e dou uns tapas nela porque sou educado...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Retorno

humberto o sousa 

 

... teoricamente falando, claro. Eu meditei bastante e cheguei à conclusão que a vida é uma grande merda. Veja você que coisa esquisita, quando era garoto conheci uma menina horrível, gorda, cheia de bereba no rosto, mau hálito e dentes todos tortos. Ela falava para todo mundo que era apaixonada por mim e, lógico, eu morria de vergonha, mas nunca a destratei. Quando havia uma festinha qualquer eu sempre dançava uma ou duas músicas com ela para que se sentisse feliz. Uma semana antes do “grande evento” – você já deve estar cansada de ouvir esta história, mas vou continuar contando mesmo assim – fui ao meu banco renegociar um empréstimo e quem que era a nova gerente? Não precisa responder. Era ela. Como era da minha idade deveria ter uns quarenta e cinco anos, mas não aparentava mais de trinta. Eu não a reconheci de imediato, na verdade ela que me reconheceu e disse quem era. Estava linda, com o corpo perfeito, solteira e desimpedida, almoçamos juntos naquele dia e nos encontramos mais duas vezes antes de irmos para o motel, justamente no dia do “grande evento”.

- Por outro lado, casei-me com a mulher mais linda e meiga que já havia visto na vida, e quinze anos depois estava gorda, relaxada e rabugenta. Não diga que eu não a deixava trabalhar e fiz três filhos nela, não é esta a questão, os motivos não importam o que importa são as voltas que o mundo dá, ou dava.

- No dia do “grande evento”, depois de uma tarde maravilhosa passada no motel, voltei para casa e começou o inferno. Minha esposa queria saber aonde eu tinha tomado banho, o cheiro de sabonete e meus cabelos ainda úmidos não me deixariam mentir, então peguei o carro e saí. Entrei no primeiro bar decente e bebi, bebi, bebi. Bebi tanto que nem me lembro como cheguei aqui. Quando acordei e vi estas paredes brancas e esta luz intensa, mas que não fere os olhos, pensei que estava morto. Depois você entrou e começou a aplicar-me injeções, pensei que estava em um hospital. Só comecei a desconfiar de que não era uma coisa nem outra quando te reconheci. Você é uma mistura das duas: uma quando jovem e a outra já madura. Você é a mistura dos dois grandes amores da minha vida que somente poderia ser forjada pelo meu espírito e...

Neste momento ouviu claramente em sua mente um aviso curto e seco, mas de uma voz amiga e apaixonada: “Chegamos”.

Há certo tempo, ele e sua nave, foram atacados por três espaçonaves desconhecidas quando estava tentando fazer contato. Dispararam uma salva de mísseis atômicos e, se não fossem as paredes de mais de quinhentos metros a sua nave seria fatalmente destruída, fugiram. Os danos foram imensos e ele não poderia seguir os agressores, mas enviou uma sonda para acompanhá-los sem ser notada enquanto a sua nave se auto reparava. Duas semanas atrás finalmente recebeu uma mensagem comunicando o destino das tais neves, uma estrela a uns dez anos luz de distância e seguiu para lá e agora chegaram.

A sonda começou a enviar-lhe imagens. No princípio ele não acreditou, mas aqueles anéis eram inconfundíveis e depois a Grande Mancha Vermelha ainda estava no equador do maior planeta do sistema.

Uma lágrima lhe escorre pelo rosto. Após oito mil anos sem ver um rosto humano de verdade ele teria que destruir toda a humanidade. A missão daquela nave, e dele como seu único ocupante, era destruir as raças agressoras que porventura saíssem de seus planetas.

humberto.sousa@etec.sp.gov.br

quarta-feira, 31 de março de 2010

O Nestor morreu!


humberto o sousa

- Mas quando? Ainda ontem à tarde tomamos uma cerveja juntos lá no bar do Bigode.
- Foi lá mesmo que ele morreu, deram dois tiros nele, um na barriga e outro na cabeça.

Qual não foi minha surpresa quando, há uns oito anos, ao atender o toque da campainha, deparei-me com um sujeito de cabelos e barba longos grisalhos, pensei imediatamente em Papai Noel. Achei que já o conhecia de outro lugar:
- Por favor, onde posso encontrar ... Dadá!?
Ao ouvir o velho apelido não tive mais dívidas, era o Alípio. Havíamos servido o Exército, e tomamos muitos porres, juntos há mais de vinte anos.
Abraçamos-nos e a velha amizade logo recomeçou do ponto em que havia parado.
Ele contou que era Delegado de Policia e estava sendo transferido para nossa cidade e procurava uma casa localizada em um lugar tranqüilo e indicaram, que coincidência, a terceira casa além da minha e estava tentando falar com o proprietário. Chamou a esposa, que estava dentro do carro, estacionado em frente à pretendida, entramos, famílias apresentadas, afinidades descobertas.
Liguei para o proprietário da tal casa, e ali mesmo fecharam negócio, quinze dias depois mudaram de mala e cuia.

De um total de trinta e duas casas, somente sete eram ocupadas permanentemente por seus proprietários, alguns dos outros passavam o fim de semana e o restante somente vinham uma ou duas vezes por ano.
Dos sete dois eram aposentados e ficavam à parte dos outros cinco, cuidando de seus jardins e pescando nos finais de tarde, distribuindo peixes frescos para a vizinhança toda. Já Cacau, Nestor, Alípio (Dr. Delegado), Jorge e eu trabalhávamos na pequena cidade próxima e ao final do dia, sempre nos encontrávamos no último boteco da cidade, que ficava bem no fim do asfalto, o famoso Bar do Bigode, na realidade um verdadeiro copo sujo, daqueles que os homens adoram, com sua mesa de bilhar e cerveja sempre no ponto certo.
Deste companheirismo de boteco surgiu uma sólida amizade entre nossas famílias, com churrascos em quase todos os fins de semana ou a reunião para assistir algum jogo de futebol, os homens na sala, as mulheres na cozinha e as crianças só Deus sabe onde.
A coisa toda começou a desandar quando surgiu a suspeita de que o Nestor estava comendo a esposa do Cacau. Ninguém comentava nada, mas nossas reuniões passaram a ser permeadas por silêncios constrangidos.

Naquele sábado cedo estava eu tranquilamente podando a trepadeira do muro da frente quando vejo o Dr. Delegado sair da casa dele, só de sunga, garrafa térmica em uma das mãos. Entrou em minha casa, sem pedir licença, voltou com uma cadeira e dois copos, sentou-se e colocando um dos copos entre as pernas, encheu o outro com o conteúdo da garrafa, era caipirinha de vodca, e me passou.
Com o copo na mão acomodei-me no chão ao seu lado, e, antes de tomar o primeiro gole, ele disparou:
- O Nestor morreu!
- Mas quando? Ainda ontem à tarde tomamos uma cerveja juntos lá no bar do Bigode.
- Foi lá mesmo que ele morreu, deram dois tiros nele, um na barriga e outro na cabeça.
- Quem?

Na quinta feira anterior, três horas da tarde, o Nestor me liga dizendo que estava indo para a cidade (quando neste horário ele deveria estar na cidade trabalhando, será que ele não estaria visitando a mulher do Cacau?), e quebrou o amortecedor ao passar por um dos vários buracos existentes na estrada, eu não poderia ir socorrê-lo?
Claro que podia. Peguei meu carro e fui buscá-lo e deixei-o no mecânico que iria voltar com ele para ver se foi realmente o amortecedor e voltei para o serviço. Só voltei a encontrá-lo na sexta feira a noite lá no Bigode.
Tomamos uma cerveja juntos, e ele perguntou se eu tinha visto o carro dele, falei que não, e ele foi mostrar-me.
Alguém tinha, aos de socos e pontapés, feito mossas enormes nas laterais e no capô do veículo. Perguntei se ele sabia quem foi, disse que não mas um dia iria descobrir. Perguntei se iria para a casa, disse que não, tinha que ir a uma reunião na OAB da cidade e somente estaria livre lá pelas dez. Foi a ultima vez que eu o tinha visto.
O Alípio ouviu atentamente meu relato, em seu rosto não havia um pingo de amizade, somente a frieza do profissional querendo a verdade.

-Conte-me o que aconteceu, pedi.
- Bem, lá pela meia noite o Bigode me ligou. Era para ir urgente. Mataram o Nestor. Fui imediatamente. Chegando lá encontrei a vitima imóvel caída em meio à uma poça de sangue. Verifiquei os sinais vitais e não havia nenhum, constatando que estava morto. Interroguei o Sr. Bigode e ele fez o seguinte relato: a vitima, Sr. Nestor adentrou em seu estabelecimento por volta de 22:30 (vinte e duas horas e trinta minutos), pediu uma cerveja e foi prontamente atendido. A testemunha afirma que ficaram conversando até as 23:00 (vinte e três horas), quando chegou o indivíduo conhecido pela denominação de Cacau, sentou-se com a vítima e passaram a animadamente conversar sobre futebol, ambos, pelo que todos sabiam, torciam pelo mesmo time, tomando várias garrafas de cerveja. Após certo tempo o Sr. Nestor começou a falar de seu veículo, afirmando que “Quando descobrisse o corno filho da puta que havia feito aquilo” iria quebrar a cara dele. Ao ouvir isto o Sr. Cacau levantou-se foi até o seu próprio veículo e voltou portando um revolver, aparentemente calibre 22, e disparou o primeiro tiro no abdômen da vitima e gritando que “Pode me chamar de corno, eu sou mesmo, mas não admito que me chame de filho da puta” e efetuou o segundo disparo na cabeça do falecido. Pelo relato da testemunha, o suspeito pediu a conta e, após paga-la, evadiu

sexta-feira, 5 de março de 2010

Futebol é para macho


humberto o sousa

Um, João Paulo, conhecido como Paulinho, tinha 1,74 m e 22 anos. Veio do nordeste para jogar no interior de São Paulo, em uma cidade marcada pela rivalidade polarizada entre os torcedores de dois times.
O outro, João Carlos, conhecido como Carlão, tinha 1,80 m e 22 anos. Veio do sul para jogar no interior de São Paulo, em uma cidade marcada pela rivalidade polarizada entre os torcedores de dois times.
Um, o Paulinho, atacante rápido e técnico, marcará quatro gols nos primeiros três jogos do campeonato paulista. Outro, o Carlão, era um volante com uma marcação leal, mas dura, roubava a bola e fazia lançamentos certeiros de mais de quarenta metros, marcou um gol e passou a bola para que dois outros fossem marcados do total de seis do seu time nos três primeiros jogos do campeonato paulista.
A próxima rodada seria decisiva para os dois times, haveria confronto direto. A imprensa da região já anunciava o clássico do século. A polícia passou a semana toda atendendo ocorrências envolvendo os torcedores de ambos os times, qualquer discussão de quem seria o melhor, Paulinho ou Carlão, descambava em quebra-quebra.

O “derby” seria no domingo e já na quinta os presidentes dos dois times tiveram que cancelar as respectivas agendas para convocarem juntos às emissoras de rádio e televisão locais uma entrevista coletiva para pregar a paz, na verdade eles somente conseguiram elevar mais a temperatura e a intransigência das torcidas. A entrevista estava ocorrendo relativamente bem até que o repórter do maior canal de televisão da região fez uma pergunta capciosa e, bem na hora do almoço, em frente às televisões, a maioria dos moradores da cidade foram testemunhas de uma cena deprimente: “se as ofensas que os dois presidentes vinham trocando há meses não estariam influenciando os ânimos dos torcedores dos dois times”. Os presidentes sem acreditar no teor da pergunta, afinal eles estavam ali para apaziguar os torcedores e vinha este repórter de merda colocar lenha na fogueira, olharam fixamente para o repórter, depois se entreolharam e, esta troca de olhar fez com que velhas feridas fossem abertas, o mais extrovertido dos dois pegou o microfone e disparou: ”Escuta aqui seu porra, para tentar a paz fui obrigado a aturar esta bicha louca a manhã toda e você vem fazer esta pergunta do cara...”. Antes que ele concluísse a frase o outro lhe atirou uma garrafa de água no rosto, se levantou e partiu para cima distribuindo soco e pontapés. O repórter tentou apartar, mas depois de ter tomado uns tapas “acidentais” acabou desistindo.
Nos telejornais noturnos a cena foi retransmitida para todo o território nacional, com entrevistas de ambos os lados falando em processos por ofensa moral, injúria e danos físicos.

Enfim domingo, dia do grande jogo. As Polícias da cidade solicitaram reforços nas cidades vizinhas e passaram a patrulhar ostensivamente os pontos críticos e os principais caminhos para o estádio. Ocorreram poucos incidentes, havia a suspeita de que as torcidas esperariam para partirem uma para cima da outra ao final da partida e o comandante da Polícia Militar rezava a todos os Deuses que realmente as agressões ocorressem “após” a partida e não “durante” a partida, pois, se isso acontecesse seria uma tragédia maior do que a primeira opção porque ocorreria em ambiente fechado, sem lugar para fugir em caso de pânico.
Começa a partida e todos notaram que a função do Carlão em campo seria ser a sombra do Paulinho e lá pelos vinte minutos do primeiro tempo nenhum dos dois ainda não haviam realizado nada: Paulinho não conseguia ficar desmarcado para receber a bola e o Carlão não armava nada e nem era o paredão na frente dos zagueiros de seu time. O jogo estava burocrático e tedioso. Aos trinta há um escanteio para o time do Carlão e ele vai para a área adversária para tentar o cabeceio, Paulinho vai atrás para marcá-lo, durante o empurra-empurra antes da cobrança o Carlão se vira e dá um murro no rosto do Paulinho que cai desacordado, soube-se depois que perdeu dois dentes e teve fratura do maxilar e suspeita de uma concussão craniana, foi internado. Carlão é expulso na hora. Começa a briga, tanto em campo, quanto nas arquibancadas. Parte dos torcedores invade o gramado, a policia já não consegue dominar a situação e começa a lançar gás lacrimogêneo, o trio de arbitragem, mais o quarto juiz, abandona o campo, diretores de ambos os times trocam sopapos. O representante da federação e o comandante da tropa da Policia Militar se reúnem com os presidentes dos times e chegam à conclusão de que é melhor suspender o jogo para uma nova data em campo neutro. A situação somente foi controlada após três horas com o saldo de um morto e uns oitenta gravemente feridos.
Inicialmente Carlão, no domingo à noite, é tido como o grande responsável pela tragédia. As grandes redes o caçam para uma “exclusiva”, mas ninguém sabe onde encontrá-lo. Quando os médicos autorizaram, Paulinho dá sua entrevista dizendo que não guardava rancor, que ele e o Carlão já se conheciam desde os 18 anos, quando participaram de uma Copa São Paulo de Futebol Junior e já haviam disputado um Sul-Americano pela seleção brasileira sub-vinte, quando dividiram o mesmo quarto na concentração e nos hotéis, não se tornaram amigos, mas sempre tiveram certas afinidades, até passaram a jantar juntos de vez em quando desde que passaram a jogar nos atuais times, etc e tal.
Na quarta surgiu um vídeo na internet de uns vinte segundos em que mostrava o real motivo da agressão: Paulinho, não uma, nem duas, mais várias vezes, enfiava o dedo médio no rabo do Carlão que tentava defender-se dando tapas na mão do Paulinho, até que em um momento de extrema irritação deu o tal soco.
Na quinta pela manhã os jornais estampavam as fotos, em seqüência, tiradas do vídeo e, enfim, os telejornais na hora do almoço absolveram o Carlão. Se pegaria ou não uma pesada suspensão não tinha importância, o importante era que ele provou que era macho e não aceitava desaforos.

No apartamento do Paulinho, sentados no sofá, assistindo televisão bem juntinhos, Carlão, sim era lá que ele fora se esconder, implorava que Paulinho o perdoasse pelos dois dentes e lhe jurava amor eterno.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Karma


humberto o sousa

Ele acordou com batidas na porta da cozinha, o que o deixou assustado, pois, seria impossível alguém vindo da rua ter acesso a esta porta, então, consequentemente, era alguém que havia pulado o muro dos fundos. A mãe estava no trabalho e ele, havia acabado de dar baixa do Exercito e como era final de novembro decidiu que somente voltaria ao seu emprego em janeiro, estava sozinho em casa. Procurando não fazer muito barulho, abriu a gaveta do gabinete da pia e pegou uma faca, caminhou lentamente até a porta e a abriu, tomando o cuidado de colocá-la entre ele e o visitante, a faca, firmemente presa em sua mão esquerda, preparada para o que desse e viesse.
Era a Luzia, filha da vizinha do lado esquerdo, um ano mais nova do que ele e meio metida a besta, mas um tezãozinho.
O que aconteceu em seguida foi tão rápido que ele, muito tempo depois, ainda tentava compreender a real seqüência dos fatos.
Ela entrou rapidamente e fechou a porta atrás de si, atirou-se contra ele e beijou-lhe ardentemente os lábios, depois, pegando-lhe a mão direita, começou a arrastá-lo para a sala.
No corredor ele vê a sua carteira e, lembrando as palavras de seu Sargento: ”Nunca envie este pau imundo em lugar nenhum sem camisinha”, se solta de sua condutora para pegar um preservativo e só então nota que ainda segurava a faca.
Na sala, entre beijos, tiram a roupa. Ele deita-se no sofá e ela deita por cima, começam a se esfregarem e ela vai conduzindo, com o corpo, o pênis dele para a entrada de sua vagina e o que ele sentiu na ponta de seu pênis fez com que recuasse finalmente lúcido desde a entrada tempestuosa dela.
- Que houve? – ela pergunta e ele percebe que estas foram as primeiras palavras dela desde que chegou.
- Você ainda é virgem;
- E daí? Não quero mais ser.
- E que acho que não tenho o direito de tirar a tua virgindade. Somos vizinhos há uns dez anos e mal trocamos uma dúzia de palavras neste tempo.
Ela foi surpreendida pelo que ele falou e ele logo se arrepende de ter dito e tenta consertar:
- E você sempre pareceu nunca prestar atenção em mim. Em uma festa, há uns anos, acho que foi no aniversário da Marcinha, te chamei pra dançar e você perguntou se eu não me enxergava.
- É que eu sempre gostei de você e daquela vez você me pegou de surpresa e respondi sem pensar.
- Mesmo assim não vou tirar tua virgindade.
- Tudo bem, quero você e não importa como.
Durante a próxima hora eles fizeram de tudo um pouco até ficarem saciados e ela permaneceu virgem.
- Você me ajuda a pular o muro de volta?

No dia seguinte ela voltou a visitá-lo, novamente saltando o muro e novamente voltando para casa virgem, porem satisfeita.
Ela voltou somente seis meses depois.

Era maio, a empresa em que trabalhava ganhou contrato para uma obra no Kuwait, o salário era o triplo do que ganhava no Brasil e em dólares ainda por cima. Inscreveu-se, fez os testes psicológicos e os exames físicos, foi aceito, iria embarcar dali à quinze dias, sua mãe chorava pelos cantos, de saudade antecipada, mas conformada, pois o contrato assinado era somente de dois anos.
Acordou naquela manhã com a já reconhecível batida na porta da cozinha, era Luzia, que cabisbaixa, timidamente entrou cozinha adentro.
- Soube que você vai trabalhar fora do Brasil, é verdade?
- É, Surgiu a oportunidade de fazer um pé de meia e eu estou aproveitando.
- E a faculdade?
- Tranquei matricula, volto daqui a dois anos e retomo.
- Não sou mais virgem, você não quer se despedir de mim?
Claro que ele queria.
Desta vez foram para o seu quarto, dividindo a estreita cama de solteiro.
Ele não sabia o que era Nirvana, mas provavelmente seria algo semelhante (depois, os dois conversando, ele descobriu que ela havia experimentado algo parecido), pouco antes do clímax ele sentiu como se sua alma se desprendesse do corpo e do alto, junto ao teto, observava os dois se amando. Foi uma experiência que jamais se repetiu com mulher alguma.

Já estava no Kuwait há treze meses, quando recebeu carta da mãe avisando que Luzia havia casado. Sentiu uma tristeza profunda, um sentimento de perda, somente afogado com trabalho em excesso.
Ao fim de seu contrato, renovou por mais dois anos, não queria retornar ao Brasil, apesar da saudade que sentia da mãe.
A obra do Kuwait acabou após três meses e ele foi realocado para o Iraque, com uma pequena promoção. Foi lá que recebeu a notícia do falecimento da mãe, em telex remetido pelo escritório central da empresa que trabalhava.
A chefia da obra comunicou-lhe que estavam tomando providências para o enterro da mãe e para o seu retorno ao Brasil, tinha três férias acumuladas. Ele agradeceu, mas recusou as férias, se fosse possível ele gostaria de continuar trabalhado.
Recebia somente trinta por cento de seu salário, o restante era administrado pela mãe, que depositava em uma poupança, preencheu os formulários passando este encargo para a empresa, deveriam cuidar da manutenção e pagar as contas da casa depositando o restante, devendo a chave ser entregue para dona Maria Lúcia, mãe da Luzia.
Dona Maria Lúcia passou a escrever-lhe regularmente atualizando notícias da filha, será que ela sabia de alguma coisa sobre os dois?
Luzia havia tido um filho “que por coincidência chama João Carlos como você”, que o marido de Luzia havia entrado em depressão e havia suicidado “pedi para a tua mãe não te contar”, que Luzia estava noiva e iria casar-se novamente e por aí vai. Se a notícia do suicídio do primeiro marido o havia deixado com alguma esperança o novo casamento enterrou-a.

Os dois anos iniciais no Iraque transformaram em seis e meio. Finalmente ele iria voltar ao Brasil, pelo menos por seis meses, férias acumuladas. Depois ele veria se continuaria no Brasil, voltaria para o Iraque ou iria para uma de duas obras novas: Congo ou Bolívia.
Dona Maria Lúcia, ao receber a notícia de sua volta, mandou limpar e arejar a casa, abasteceu a despensa, as despesas foram todas ressarcidas pela empresa, mediante a apresentação dos recibos.
Ao entrar em casa, depois de tanto tempo, bateu-lhe uma profunda melancolia: recordações da infância, arrependimento por não vir ao enterro da mãe e muita saudade dela e, principalmente, a insatisfação por seu amor a Luzia.
Dona Maria Lúcia vem lhe trazer um pequeno lanche, estavam no meio da tarde, e enquanto ele come, ela, sentada a sua frente, conta que Luzia estava morando no interior e, quando soube de sua vinda, avisou que viria passar uma semana com ela, chegaria na manhã seguinte.
A ansiedade de tornar a vê-la fez com que tivesse, apesar do cansaço, uma noite péssima. Sua mente vagava em fantasias febris, que variava entre ela ainda ser a mesma garota de seis anos atrás, ainda virgem, até estar em uma obesidade relaxada, dente podre e suor fétido.
Pela manhã, já de plantão junto à porta da cozinha, abriu-a a primeira batida.
Luzia estava somente um pouquinho mais gorda, uma pequena cicatriz em seu supercílio esquerdo e o nariz, que ele descobriria depois que havia sido quebrado pelo último marido, levemente torto realçavam a beleza de seu rosto.
Não trocaram uma palavra sequer. Na sede da paixão transformaram a mesa da cozinha em leito de núpcias. Novamente ele alcançou o Nirvana.

- Quer se casar comigo?
- Te amo de mais para me casar com você.
- Não entendi o paradoxo.
- Minha mãe diz que tenho um carma ruim para homem. Aquele meu namorado, o que me tirou a virgindade, ficou tetraplégico, quebrou o pescoço ao pular na piscina. Meu primeiro marido suicidou. Tive um noivo que morreu em um acidente de carro. Meu último marido, era um amor de pessoa, de repente passou a me espancar todos os dias e está preso por ter matado um rapaz que, pensando que eu estava desacompanhada, me chamou de gostosa, estou me divorciando.
- Tudo isto é coincidência.
- Pelo sim e pelo não, nunca assumirei compromisso com você. Depois do divorcio virei morar aqui com a minha mãe e continuarei pulando o muro.
- Mandarei construir uma escada. O meu karma é esperar você pular o muro.

domingo, 8 de novembro de 2009

Quando a violência policial não (?) se justifica

humberto o sousa


Conheço o Zezinho há quinze anos, nem bem descarregamos a mudança e ele já estava tocando a campainha oferecendo os seus serviços de trabalhador free-lance (biscateiro).
Ele deveria ter uns dezoito anos nesta época e durante os quatro anos seguintes ajudou-me a cortar grama e trepadeira, reparar instalações elétricas, pintar a casa, etc.
Eu e minha esposa fomos seus padrinhos de casamento, nasceu-lhe o primeiro filho e ele deixou a vida de biscateiro conseguindo um emprego fixo e, tendo renda mensal líquida e certa, pôde enfim deixar de morar com a sogra e alugar uma casinha.
Como tudo começou a dar errado eu sinceramente não sei, só sei que, ao sair do trabalho, passou a freqüentar botecos, daqueles conhecidos como “copo sujo”, somente indo para casa depois de estar completamente bêbado. Nenhuma esposa agüentaria isso e a dele não agüentou, pegou a mala e o filho e voltou para a casa da mãe, como ele não tomou nenhuma medida para trazê-la de volta, todos comentaram que ele nem deve ter notado que ela se foi.
Perdeu o emprego e voltou a fazer biscates, claro que ele não agüentava mais o batente, mesmo assim eu voltei a chamá-lo para me ajudar, não fazia nada, mas me distraia ouvir as suas aventuras boemias. Esta boa ação somente durou até eu pegá-lo fumando um cigarro de cheiro estranho na varanda de minha casa. Coloquei ele para correr.
Soube que ele havia se amigado com uma senhora uns vinte anos mais velha do que ele e bebia a mais na mesma proporção. Morava o casal mais a filha dela, viúva, e os dois netos da anciã. O romance acabou abruptamente quando a velhinha acordou de um porre e pegou o Zezinho na cama com a sua filha. Sob ameaça de ser capado, Zezinho fugiu levando junto a filha, deixando os netos para trás.
Sempre que me via pedia uns trocados, minha esposa quando fazia compras no mercado, não se esquecia de comprar alguns mantimentos para ele e a atual amante.
Começaram as prisões: furto, assalto a mão armada (canivete), posse de substâncias ilegais etc. O Delegado contou para minha esposa que somente o prendia quando precisava saber quem estava vendendo “crack”, não precisava nem perguntar “Zezinho, você ta comprando droga de quem?”. Ele já entrava na sala falando “Seu Delega, fulano é quem tá me vendendo”.

Estou contando a história do Zezinho para que entendam que o principal personagem deste escrito é responsável pelo título.

Há uns quinze dias atrás tive um problema elétrico com meu carro, como moro na zona rural, caminhei alegremente os sete quilômetros até a cidade sob um Sol de assar leitão à pururuca. O eletricista falou que o problema era simples, para ele não para mim, era só trocar o miolo da chave de partida, confesso que fiquei imaginando como ele ia trocar o miolo da minha chave, pediu para eu esperar trinta minutos, era o tempo que levaria para acabar o serviço que estava fazendo e partiríamos, como era “simples” , ele já levaria a peça e faria o serviço lá mesmo em minha casa (levou cinco minutos para consertar a droga do meu carro, realmente era simples).
Fiquei sentado na porta da oficina e de repente acabou o sossego.
Lá vem o Zezinho em desabalada carreira pela rua, com metade da cidade atrás querendo linchá-lo, a sorte dele é que chegou uma viatura policial. Os dois policiais desceram, era o Kabim (“baixim, pretim, espevitadim e com cara de bobim”) e o Hulk (“grandão, bundão, ignorantão, ... um monte de ão ... acabando com cara de bobão”).
Protegeram Zezinho e perguntaram para a turba enraivecida o que estava acontecendo, eu havia me aproximado para ouvir também, e o ocorrido foi o seguinte: Dna ... havia ido ao mercado comprar fraudas para a filha, saibam que ela tem dezoito anos e idade mental de três, e quando voltou encontrou aquele filho de uma puta, desculpa para a tua mãe Zezinho, ela é uma santa e não merece o filho que tem, beijando a sua filha seminua.
Perguntaram para o Zezinho se era verdade, respondeu que era, ele estava passando por ali e viu a Dna ... saindo, deixando a casa aberta, resolveu entrar para pegar alguma coisinha para fazer dinheiro, quando viu aquele mulherão, nua da cintura para baixo, rindo feito boba para ele, com ou sem paralisia cerebral ele resolveu traçá-la e foi aí que a mãe dela voltou e aprontou aquele escândalo, e ele teve que fugir.
Kabim mandou Zezinho se virar para ele por as algemas, na maior educação, o problema é que quando ele se virou, já pondo as mãos para trás, ele viu o Hulk, segurando o riso e com cara de deboche. Zezinho não pensou duas vezes e antes que alguém pudesse impedi-lo partiu para cima do Hulk, pulando com os dois pés no peito dele, jogando-o ao chão, o policial, ágil como um gato, levantou com um salto e desceu o braço no Zezinho, que caiu. Nunca vi ninguém apanhar tanto na vida, fiquei com pena mas a platéia estava aplaudindo e incentivando o policial a chutar mais. Por fim o Kabim conseguiu conter o companheiro e transportara o infeliz para a delegacia semi-desfalecido.

Ontem, sábado, pela manhã, sai do serviço e no caminho para a padaria cruzei com o Zezinho, mais enrolado em bandagens que uma múmia. Naturalmente ele me parou para pedir uns trocados e eu naturalmente dei foi quando ele lascou a pergunta: “Cumpadi, cê tava lá quando me prenderam?”, respondi que sim e ele, com um sorriso safado no rosto, faz a seguinte comentário:”Se você acha que eu apanhei muito, deveria ter visto o tanto que apanhei na delegacia”, e vai embora.
Fico pensando com meus botões que ele mereceu tudo o que recebeu.

domingo, 25 de outubro de 2009

O último convidado.

humberto o sousa

Ele ficou contente com o convite dela. E pensar que até três dias atrás, somando os sete anos que estudavam na mesma classe, ela mal lhe havia dirigido meia dúzia de palavras.
Tudo começou quando o professor de Química resolveu que a prova daquele bimestre seria feita em duplas determinadas por ele e, para felicidade dele, escolheu ela como sua parceira. Marcinha que nunca havia tirado nota maior que seis em Química, naquela prova tirou dez.
-Roberto?
“Marcinha, meu amor, pode me chamar de Beto”, ele pensa dizer, mas somente diz: -Sim?
-Sábado é meu aniversário e vai ter um bailinho lá em casa, você gostaria de ir?
“Com toda certeza, como já esperava o teu convite já comprei até o presente”. –Claro.
-Vai começar às oito da noite. Daria para você chegar um pouquinho mais cedo para me ajudar a organizar umas coisinhas?
-Tá.
Ela abre a bolsa e lhe dá um convite com o seu nome escrito.

Chega em casa feliz da vida. A mãe pergunta-lhe se viu o “passarinho verde”. E ele conta que a Marcinha o convidou para a festa de aniversário dela no Sábado e que ele iria precisar de roupa e um par de sapatos novos, afinal nunca ninguém havia convidado ele para nada e será que ela, a mãe, não poderia ajudar-lhe a comprar um presente para a Marcinha, afinal ela era a melhor amiga dele e eles estudavam juntos desde a quinta série.

Enfim chega o sábado.
São sete e meia da noite e ele já estava no portão da casa da Marcinha tocando a campainha. O pai dela é que vem atender:
-Você que é o Roberto?
-Sou.
-A Márcia está se trocando. Você sabe como são as meninas, levam horas para se trocarem.
-Sei.
-A Márcia me disse que você a ajudou na prova de Química, que você é um bom garoto e que não tem muitos amigos.
Ao ouvir o elogio ele cora envergonhado, mas, a menção de que não possuía amigos, aos poucos a vermelhidão vai se convertendo em raiva.
-Não fique com vergonha, ter poucos amigos às vezes é vantajoso. Veja meu problema, toda festa que nos damos enche de “penetras”. Para resolver o problema desta vez resolvemos distribuir convites e se eu colocar uma pessoa com muitos amigos aqui para conferi-los, esta pessoa provavelmente vai colocar para dentro todos os amigos que tiver, com convite ou sem convite, tornando-os inúteis.
-Entendo.
-Então eu gostaria de te pedir um favor.
-Pois não.
-Você poderia ficar aqui no portão recebendo os convidados?
-Posso.
-Não é por muito tempo, só foi distribuído vinte convites e cada convite dá direito a duas pessoas entrarem.
-Entendi.
O pai da Márcia faz-lhe um carinho no ombro e se afasta em direção a casa, mas volta na metade do caminho.
-Quando entrar o último convidado você poderá aproveitar a festa.
Os convidados começam a chegar e ele vai pegando os convites. Os colegas de classe ficam admirados por não saberem que ele era intimo da família da Marcinha.
Lá dentro começam os risos, a música e pedaços de conversas entreouvidas no intervalo das músicas.
Lá pelas tantas ele olha o relógio, já passava das dez.
Mais dez minutos e o pai da Márcia vem com um pratinho de salgadinhos e uma lata de refrigerante. Ele agradece a gentileza.
-Já tem quantos convites?
-Dezoito - ele responde de cor, ele contava os convites a cada convidado.
-Você vai ter que ficar aqui mais um pouquinho.
Nesse momento chega mais um convidado, só ficou faltando um.
-Roberto, te vejo lá dentro, o último convidado não deverá demorar muito – diz o pai, retornando para a festa.
A meia noite chega e os primeiros convidados já estão partindo e ele continua lá, esperando o último convite, xingando o filho da mãe até a última geração.
Marcinha vem e lhe entrega um pratinho de bolo e pergunta-lhe porque ele ainda estava ali fora.
-Esperando o último convidado – Ele diz entregando-lhe o presente que a mãe havia comprado.
-Me deixaeu conferir quem não veio.
Ele lhe entrega os convites e ela começa a ler os nomes nos envelopes, depois ela os conta.
-Roberto, tem dezenove convites aqui e só está faltando o teu.
-O meu?
-É.
Ele tira o último convite do bolso da calça e o junta aos restantes.
Ele está se sentindo um verdadeiro pateta.

domingo, 13 de setembro de 2009

A receita

humberto o sousa



-Hoje acordei com vontade de ir à Londres de novo.
Ela pergunta: - Você já foi a Londres?
-Não, é que semana passada também tive a mesma vontade.
Ela sorri e ele pensa que ela está rindo da piada dele. Na verdade ela está rindo dele, como uma pessoa de trinta anos podia ser tão imbecil?
Ela já estava namorando ele há um mês, detestava-o desde a primeira vez que ele lhe dirigiu a palavra. Ela havia prometido ao avô que arranjaria um namorado e o levaria para a festa da igreja e, como não negava nada ao avô, teria que agüentar este babaca, que ela escolheu a dedo, até lá.
Ela tinha vinte e dois anos, um metro e sessenta, bonita, cabelos negros e olhos verdes. Não possuía um corpo perfeito, ela era daquelas mulheres magras que tinha os quadris largos e as coxas finas, ficando um vão enorme entre as pernas. Como dificilmente usava calça a maioria das pessoas achava que ela era evangélica.
Ele tinha quase dois metros, cento e vinte quilos e até para ir à padaria da esquina ia de carro. Ele naturalmente se sentia poderoso diante dela, protetor.
- Uma formiga chegou para a outra e disse: “Meu nome é fumiga e o teu? ’
E a outra respondeu - ‘Ota”.
Ela sabia onde aquilo ia dar outra piada sem graça, mesmo assim perguntou - Ota o quê?
- Ota fumiga. E ele dá uma imensa gargalhada.
Ela até que poderia se apaixonar por ele. Se a situação fosse outra, casariam, teriam filhos e ela o protegeria das durezas e injustiças da vida, mas ela estava impedida pelas condições do avô, então o odiaria e fim de papo.
- Sabe, no fim de semana tem a festa da igreja matriz, lá em minha cidade, terei que ir e gostaria que você fosse comigo.
- Mina, com você, e por você, vou até o inferno.
- Então agente sai na sexta feira à noite. Só não diga para ninguém onde você está indo, algum amigo teu poderia querer ir. Quero um fim de semana somente para nós dois, afinal vou te apresentar minha família.
Enfim sexta feira, ele aguardava ansiosamente este dia. Tinha a esperança de que iria finalmente come-la.
Ela o está aguardando em frente ao prédio dela, de bagagem somente uma bolsa. Ele pergunta se ela não tem nenhuma mala e ela responde que tem roupas de sobra no sítio do avô.
Ela diz que iriam no carro dele, mas seria melhor ela ir dirigindo. Ela sempre confundia esquerda com direita na hora de explicar o caminho para alguém. Ele, querendo deixá-la feliz, concorda.
Ela dirigiu a noite toda e, sempre que possível, por estradas secundárias. Ele perguntou-lhe o porquê disto e ela respondeu que não gostava de pagar pedágio. Na verdade ela estava era fugindo das câmeras de segurança, que certamente filmariam o carro e, na investigação policial que aconteceria no futuro, esta imagem poderia aparecer.
Chegaram ao sítio do avô logo após o nascer do sol. O avô já estava de pé e os esperava na varanda da enorme casa, abraça a neta e cumprimenta o namorado, dirigindo à neta um olhar de aprovação.
- Fico feliz que tenha vindo com minha neta, ele diz. Há mais de cem anos nossa família faz quitutes para a festa da igreja da cidade. Minha filha sempre me ajudou no preparo dos pasteis que serão vendidos na quermesse, mas como morreu em um acidente no ano passado, é minha neta que terá que me ajudar. Se você não tivesse vindo com ela, veja a carinha de felicidade dela, ela não estaria tão feliz e os pastéis não ficariam gostosos e o padre brigaria comigo.
E o avô continua falando sem parar, ele mal tem tempo para pensar.
- ... Sei que estão cansados, mas insisto que você venha ver os animais que crio. São animais silvestres, claro que tenho autorização do IBAMA, vendo a carne para restaurantes de São Paulo e do Rio. Também exporto.
E vai conduzindo os dois para os cercados onde estão os javalis, pacas e antas.
Depois insiste para que ele veja as instalações onde as carnes eram processadas.
A construção, com seus azulejos e pisos brancos, bancadas e pias de aço, tem uma aparência de higiene e limpeza.
Ela caminha logo atrás deles e em determinado momento o chama, obrigando-o a se voltar para ela. Ela segura seus braços e o olha com um olhar triste.
Ele não vê que o velho, atrás dele, pega uma pesada barra de ferro.
A última imagem que ele viu foi o rosto dela sendo coberto com sangue e fragmentos de uma substância esbranquiçada que ele sabia ser o cérebro dele. Como já estava morto ele não viu que ela limpava o rosto com as pontas dos dedos e os levava à boca e em seus olhos não havia mais tristeza e sim uma voracidade animalesca.

Naquela noite ela e o avô venderam mais de quinhentos pasteis de carne, que foram muito elogiados e, como sempre, todos perguntavam que carne que eles usavam e eles respondiam que era uma mistura de carnes de caça, cuja receita era segredo de família.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Descoberta

humberto o sousa

João chega de viagem de manhazinha, está cansado, dirigiu a noite toda. A esposa ainda dorme.
Sem fazer barulho, pega o pijama, e se dirige ao banheiro para tomar um banho; ao voltar para o quarto ele vê que a esposa já se levantou e foi preparar um café, o cheiro o atrai para cozinha, senta-se a mesa e fica observando-a. Ela está com quarenta anos e procura manter-se em forma e, com poucas rugas, lembra a garota que ele conheceu há vinte anos. Ela lhe oferece uma xícara de café, mas ele recusa, atrapalharia o seu sono.
Ela vai tomar banho e ele deita-se.
Já está começando a cochilar quando sente que ela deita-se ao seu lado, completamente nua e aninha o corpo junto ao seu, não é sexo que ela procura, ela só quer contar-lhe o que sonhou a noite, todos os dias ela lhe conta o que sonhou. Depois que ela acaba de lhe contar o sonho sai da cama e vai se trocar.
Ele volta a cochilar quando ela o acorda de novo, desta vez com a mão em seu pênis e beijando seu rosto, ele olha para ela suplicante. Ela ignorando o olhar afasta-se, mas a mão insiste em ficar. Ele pede que ela volte a deitar e ela diz que não pode, tem um paciente marcado para as dez horas e, com um “eu te amo” vai embora.
Ele tenta dormir, mas não consegue, está com uma dolorosa ereção.
Levanta-se vai para o banheiro se aliviar e naquele momento tão intimo, quando ele poderia estar possuindo qualquer mulher do mundo, é nela que ele pensa.
Finalmente ele descobre que após vinte anos de casado ele ama a esposa

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Decepção

humberto o sousa

Ela o conheceu no trabalho. Ela recepcionista, ele o patrão.
Ela somente vinte e três anos, ele quase quarenta. Ela corpo perfeito, rosto bonito, simpática e ele acima do peso, careca e com um carisma que faria qualquer pessoa se derreter diante dele.
Ela somente tinha a mãe, que morava em outra cidade e ele, sem família, possuía somente um amigo, Dr. Jarbas, fizeram faculdade juntos e eram sócios na banca de advogados.
No início, ela e o Dr. Almeida, almoçavam juntos e, com o tempo, passaram a jantar juntos, passar finais de semana juntos e finalmente casaram e ela deixou de chamá-lo de Dr. Almeida, ele passou a ser somente o Almeida.
Ela passou a levar uma vida quase que perfeita, ele a enchia de presentes, viagens e carinho. O único problema era que ela queria sexo todos os dias e ele somente de vez em quando, talvez fosse pelo excesso de trabalho. Ela era fogosa na cama, querendo de tudo um pouco e ele adepto do sexo burocrático. Conversaram e decidiram fazer amor uma vez por semana, concessão dela, e ele passaria a ser mais “criativo”.
A infelicidade dela começou dois dias antes de completarem cinco anos de casamento. Ela foi até a loja em que costumava comprar suas roupas intimas e escolheu uma lingerie bem sexy para eles comemorarem a data e a vendedora disse-lhe que seria “melhor” ela escolher outra, intrigada, será que não lhe ficaria bem? Quis saber o motivo e a vendedora relutantemente disse-lhe que o Dr. Almeida, no dia anterior, havia comprado um conjunto semelhante e pedido para embrulhar para presente. Voltou para casa feliz, será que o Almeida estaria ficando “criativo” o suficiente?
Aguardou a data do aniversário ansiosamente e finalmente no dia, nada de presente “criativo”, ela ganhou somente um anel com um imenso diamante o que a deixou decepcionada, será que ele tinha outra?
A dúvida foi crescendo em seu peito e, precisando dividir, ligou para a mãe e juntas bolaram um plano. Ligou para o Almeida contando-lhe que a mãe estava doente e ela iria viajar para cuidar dela, será que ele agüentaria ficar uma semana longe dela?
Ela fez as malas, colocou no carro e viajou, mas somente até a cidade vizinha, hospedou em um hotel, alugou um carro e voltou decidida a seguir marido.
De campana em frente de casa ficou aguardando o marido sair para o trabalho, mas o marido não saiu, pelo contrário, chegou um taxi, buzinou e a garagem foi aberta, o taxi entrou, a garagem foi fechada, dois minutos depois abriu novamente e o taxi partiu. Será que ele teve coragem de trazer a amante para transarem na cama dela?
Ela aguardou trinta minutos e silenciosamente entrou na casa. Com todo cuidado se dirigiu para o quarto do casal e encostou o ouvido na porta e ouviu os gemidos do clímax que se aproximava. Tirou o celular da bolsa e abriu a porta repentinamente. A cena que viu era certamente dantesca: o marido de quatro, peruca de cabelos longos e negros e vestindo a maldita lingerie era enrabado por Jarbas.
Os dois, ao vê-la, imobilizaram-se como se qualquer movimento feito acusasse o que faziam.
Ela, em um movimento ligeiro, atravessou o quarto e abriu a gaveta da cômoda do marido e retirou o revólver que ele ali mantinha para a proteção do casal e apontou para os dois e, com o celular na outra mão bateu várias fotos do casal e, depois, calmamente caminhou até Jarbas, encostou o revólver em sua têmpora e disparou, este desabou por sobre o marido, prendendo-o no chão. Apontando o revólver para o marido ela bateu outras fotos e enviou-as para a mãe.
Olhando para os olhos assustados do marido e dizendo: “Eu te amo tanto”, levou a arma para própria boca, encostando o cano no céu da boca, disparou.

(esta pequena estória é inspirada em um caso contado por Gil Gomes em um programa de rádio a mais de trinta anos)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A moça da bicicleta

humberto o sousa


A moça da bicicleta seguia uma rotina diária, chovesse ou fizesse sol: ia pedalar todos os dias no final da tarde na praça da cidade.

Chegava sempre depois das quatro, quando a praça estava relativamente vazia, tendo como os únicos freqüentadores os aposentados com suas intermináveis partidas de dominó ou truco. Partia antes das cinco, hora em que chegavam os praticantes de caminhada que dariam infindáveis voltas em torno da praça, um percurso que conheciam com os olhos fechados.

Ela sempre trajava uma bermuda de ciclismo claramente sem calcinha e camiseta sem mangas. A bicicleta chamava a atenção pela regulagem do assento que era levantado ao máximo, fazendo com que a moça pedalasse quase em pé com a ponta do selim tocando o vão de suas pernas. Certa vez seu pai perguntou-lhe o porquê daquilo e ele, embaraçada, respondeu-lhe que era para exercitar os músculos do bumbum e das coxas.

Enquanto pedalava ela ia pondo os pensamentos em dia Pensava na faculdade que não acabava nunca e ela somente casaria depois de formada. Pensava no ex-namorado que queria dela muito mais que carícias e, como ela fez promessa de casar-se virgem, romperam. Pensava nas amigas que trocavam de namorado toda semana, algumas já com filhos, mal faladas por toda cidade e a mãe proibindo-a de se relacionar com algumas delas. Pensava sobre a melancolia profunda que a acometia e como a amenizava pedalando.

Ela seguia pedalando. Sua face triste aos poucos ia se iluminando aos poucos em um meio sorriso luminoso que era acentuado pelos olhos semicerrados.

Os senhores, que se entretinham com os jogos, ao verem o meio sorriso no rosto dela interrompiam as partidas e começavam a apostar, com toda a discrição, se o momento seria em frente a eles ou no lado oposto, se seria silencioso ou escandaloso e aguardavam.
Neste dia especial foi um show. Ela acelerou as pedaladas e a respiração e de repente o corpo se imobilizou, a bicicleta seguindo somente pela inércia, e, bem em frente às mesas de jogos, ela gritou: “Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh ... cooooooooooomo éeeee bommmmmmmmmm.” Depois partiu sem olhar para os lados e nem notar os velhinhos que lhe sorriam em solidariedade.

No dia seguinte ela voltaria.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Dúvida

humberto o sousa


Durante treze dias menti, as crianças perguntam: “cadê mamãe”, respondo: “tá viajando, o vô tá doente e ela foi cuidar dele”.
Não tenho coragem de contar para eles. Até o bilhete deixado pela maldita trago dobrado na carteira e, sempre que a raiva está esquecida, pego e releio. Não posso deixar esta raiva morrer nunca. Na primeira oportunidade vou lá e mato ela na frente dele. Depois o capo. Só não fui ainda porque não me decidi se o capo na frente dela e depois mato ela na frente dele.
Ninguém ainda sabe do acontecido. Sou sargento da polícia, se todos ficam sabendo acabou minha moral, nenhum bêbado da cidade vai me respeitar mais. Os bandidos já deixaram de respeitar a polícia faz tempo.
Fui pensar em bandido e a raiva foi esquecida. Vou até o banheiro para reler o bilhete:
“Benê,
Gosto muito de você, você é bom pai e bom marido.
Tomei a decisão de partir porque me apaixonei pelo palhaço do circo, fugi com ele.
Depois de tanto tempo casada com você, minha vida ficou um tédio só. Faltava aventura.
Não me queira mal. Fiz isso por te respeitar e não querer te botar chifre morando na mesma casa que você.
Diga para as crianças que mamãe ama muito eles e que quando passar a raiva do papai eu vou ver eles.
Um grande beijo,
Cidinha.”
Tem respeito por mim o caralho, nem os bêbados me respeitam mais. Trocar um sargento da PM por um palhaço de circo mambembe.
Droga, distraído e joguei o bilhete no vaso e dei descarga.
Não preciso mais dele, já sei de cor.
Meu Deus, o que fazer?

Mato a desgraçada primeiro e depois capo ele ou capo ele e depois mato ela?

sábado, 18 de julho de 2009

O último fracasso

humberto o sousa

Ele olha para o céu noturno e se sente pequeno, finito e insignificante.
Olha para o passado e vê que a sua vida foi uma série de fracassos, desilusões e atos insignificantes e não há perspectiva de que o futuro seja melhor.
Senta-se no parapeito, uma garrafa de café e um sanduíche no colo, os pés balançando nervosamente no vazio, e aguarda o amanhecer.
Aos primeiros raios de sol a melancolia transforma-se em arrependimento, não pelo que pretende fazer e sim pela vida que não teve, as loucuras que não cometeu, os porres não tomados e as mulheres que não comeu. Levou uma vidinha burocrática com receio do que as pessoas iriam dizer a seu respeito.
“Minha vida foi uma merda, pelo menos espero ter uma morte apoteótica”.
Este pensamento o deixa feliz, se é que se pode chamar de felicidade a aquele sentimento que era apenas um jato de adrenalina causado pelo pensamento na morte, mas vá lá.
Sente vontade de falar com a mãe, dizer-lhe que a ama, pega o celular e faz a ligação.
-Alô, atende a mãe com voz de sono.
-Oi mãe, sou eu, desculpa estar ligando tão cedo.
-Bom dia filho, eu já deveria ter levantado, hoje é dia de ir ao banco receber a aposentadoria. Ontem fui deitar tarde, teu irmão veio aqui jantar com tua cunhada e os teus sobrinhos.
Pelo tom de voz da mãe ele percebeu que tinha sido um erro ter ligado, mas já era tarde.
-Perdoa mãe, não estava me sentindo bem – era mentira, ele havia esquecido que era aniversário da mãe.
-Mas você deveria ter ligado, ou pelo menos ter pedido pra sirigaita da tua esposa ligar.
-Mãe, foi a senhora que me apresentou ela dizendo que daria uma excelente esposa. Só me casei com ela para te ver feliz.
-Nora é a tua cunhada, que sempre ta ligando para saber se não preciso de nada e filho é o teu irmão que vem me ...
Ele desliga o telefone, não queria continua ouvindo a cantilena da mãe pela enésima vez.
Ele toma café e come o sanduíche enquanto observa o viaduto lá embaixo, já é quase oito horas e, em breve, alguém o veria sentado no topo do prédio, apontaria e chamaria a atenção dos pedestres, alguém ligaria para os bombeiros e outro para os canais de televisão. Os carros parariam e os ocupantes desceriam para observar. Ele pararia a cidade.
Nove horas, a aglomeração lá embaixo está enorme, helicópteros da policia e das televisões circulam o edifício e, ao longe, ele houve a sirene dos bombeiros. Ele vira-se, senta dando as costas para o vazio e olhando para a porta de acesso ao topo do prédio, não queria ser pego distraído.
O celular toca, é o seu irmão.
-É você mesmo que estou vendo pela televisão?
-Sim sou eu mesmo - ele responde com satisfação, pela primeira vez recebia mais atenção do que aquele filha da puta. Te amo, dê um abraço de despedida na Mara e beije as crianças por mim.
Desliga.
Lá embaixo ele ouve as sirenes sendo desligadas, eles chegaram. Quando os bombeiros abrirem a porta ele, dramaticamente, jogara o corpo para traz e será o fim, nada de ficar perdendo tempo dialogando com eles.
Celular toca de novo e é a esposa.
-Teu irmão ligou. To te vendo na televisão. Pare de frescura e venha imediatamente para casa.
-Sim amor.
Desliga bem na hora que a porta se abre e ele salta para frente.
Abre os braços, mostra aos bombeiros a garrafa térmica e diz:
-Desculpem, só sentei aqui para comer meu lanche. Alguém poderia me levar para casa?

terça-feira, 14 de julho de 2009

Talvez

humberto o sousa

Ela estava feliz.
Corria com um sorriso maroto estampado na face. Ela possuía somente treze anos e corria, com seu sorriso, fugindo para o futuro, tendo em mente a última façanha.
Talvez se não fosse boa aluna não teria recebido aquela medalha, acompanhada de um prêmio em dinheiro.
Talvez se, tivesse paciência, esperado a mãe chegar do trabalho para lhe contar a boa notícia o destino teria lhe sorrido mais que o seu sorriso feliz.
Talvez se, no cruzamento à frente, houvesse seguido reto para onde sua mãe trabalhava até dois meses antes, o destino teria lhe reservado mil medalhas.
Talvez se aqueles dois rapazes houvessem sido tão bons alunos quanto ela, não estariam assaltando a casa lotérica bem na hora que ela estava passando correndo com o seu sorriso feliz.
Talvez se o policial, que estava fazendo uma aposta, fosse mais bem treinado não teria sacado a arma e, correndo, sem nenhum sorriso no rosto, começado a atirar para todos os lados.
A menina que corria caiu, ainda sorrindo, com os olhos abertos. No chão ficou como quem olha o azul do céu. Em seu peito desabrochou uma flor vermelha de sangue, destacando ainda mais a sua medalha.
Os jornais dirão que foi mais uma vitima de “bala perdida”, não mencionarão seu sorriso nem sua medalha.
Em uma história de muitos talvez, somente uma certeza: não existe “balas perdidas”. Existe somente a incompetência e o desprezo pela vida.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O "Predador da Zona Norte" - conto

humberto o sousa
A polícia estava em polvorosa, mais de doze agressões. Foi até criada uma “Força Tarefa”.
Ele atacava os consultórios odontológicos de mulheres dentistas no final do expediente, então a polícia catalogou todos os ditos consultórios, bem como o horário de fechamento, que passaram a ser monitorados por policiais civis em viaturas descaracterizadas com o apoio tático da policia militar.
Tudo isso porque a vítima número onze era a sobrinha de um Desembargador, que cobrou uma ação enérgica do governador. Claro que a Dra. Sobrinha não foi atacada diretamente, era mais feia que briga de foice no escuro, mas foi amarrada e amordaçada enquanto a sua auxiliar era brutalmente estuprada em sua presença. A Dra. Sobrinha ficou traumatizada, fechou a clinica e os policiais comentavam que foi por não ter sido ela a brutalmente estuprada.
Talvez por instinto, ou espírito de preservação, o estuprador, batizado pela imprensa sensacionalista de ”Predador da Zona Norte”, que quase foi preso no décimo segundo ataque, mudou de tática. Com uma boneca de pano cuidadosamente enrolada em um cobertozinho, dizendo que a sua filhinha estava com quarenta graus de febre, convenceu uma pediatra a reabrir a clinica para atendê-lo, e não deu outra. Alertados pelos funcionários da padaria localizada ao lado da clinica, que ouviram gritos, os policiais invadiram o estabelecimento e pegaram-no em flagrante, só de meias e camiseta, montado em cima da Dra. Japonesinha, totalmente nua, que era espancada violentamente com socos no rosto.
O “Predador” foi levado, depois de ser obrigado a se vestir entre tapas e safanões, para a delegacia do bairro e a vítima entre a vida e a morte, mas ainda nua, levada pelo helicóptero ambulância dos bombeiros diretamente para o Hospital das Clinicas.
...

A noticia da prisão do estuprador “vazou” para a imprensa e quando a viatura chegou com o preso, a delegacia estava cercada por repórteres, cinegrafistas e caminhões das grandes redes de televisão. Levaram quase dez minutos para atravessar o ultimo quarteirão até o distrito.
Os policiais desembarcaram e escoltaram o individuo para o interior e o trancaram em uma sala, dois deles, mais exaltados, pediram e foram atendidos, se trancaram junto e o que se passou lá dentro é um segredo profissional.
Uma hora depois o coitado andando com dificuldade foi levado à presença do Sr. Bacharel (Bel para os íntimos) de Direito Doutor Delegado e o escrivão para ser tomado o depoimento e o Dr. Delegado perguntou-lhe se o sangue que lhe cobria a camiseta era da vitima.
-Não seu dotô, é meu mesmo.
-Você será levado para o IML para fazer o exame de corpo delito, se você falar que os ferimentos que causaram este sangramento foram feito por algum policial você estará se complicando ainda mais.
-Num vô não seu dotô, us policia só me bateram nas minhas partes cum todo cuidado pru modi num machucá. Quem tirô sangue deu foi a dotora.
-Então foi por ela ter te machucado é que você quase matou ela na porrada.
-Não senhor.
-Então foi por quê?
Ele não responde, fica olhando para as mãos com os olhos distantes. O delegado pergunta para o escrivão qual era o nome do infeliz, já que ele tinha qualificado o criminoso.
-Olha Nerso ...
-Pode me chamá de Nercim.
O delegado querendo parecer amigável concorda, ele teria que fazer o cretino confessar tudo, os doze ataques anteriores e o ataque e a agressão atual, não poderia ficar esperando depoimento das vítimas, que envergonhadas, não apareceriam.
-Olha Nercim, você estuprou doze mulh...
-Num foi esse tantim não, foi mais.
-Quantas?
-Sei dize não, só sei qui foi um montão, quase uma por semana desde que vim pra São Paulo.
-E há quanto tempo você mora aqui?
-Quasi um ano.
O escrivão solta um assobio involuntário enquanto o delegado solta um palavrão. Mais uma vez a polícia seria esculhambada por não ter descoberto este maníaco antes. Volta a falar com o tarado à sua frente fingindo uma calma que não sentia, sentia mesmo era vontade de pegar este cretino e pendurá-lo pelos bagos e enviar-lhe todo um cabo de vassoura no rabo.
-Depois, quando eu tomar-lhe oficialmente o depoimento, você falará das outras. Voltando ao assunto da agressão física, quero saber, só por curiosidade, por que você agrediu a pediatra e não as outras. Você usou e abusou delas, mas não agrediu nenhuma fisicamente. Porque somente esta?
-Aconteceu um uns troço isquisitu. Quando eu entrei nela ela começou se mexer e me mordeu, rancó pedaço, aí eu dei um tapa nela e a xota dela começou a ispremé meu pau, foi tão gostoso, aí ela cumeço a ranhá minhas costas cum as unha, eu bati di novu e ela mi ispemeu di novu e começo gritá “bati mais, bati mais ...”. Mi impoguei e comecei a dá uma sova bem dada nela aí us pulicia chegaram e me prendeu.
Curiosidade resolvida, o Dr. Delegado começa a tomar o depoimento, omitindo naturalmente que a Dra. Japonesinha gozava quando apanhava.
...

O Dr. Delegado teve que pedir adiamento para a conclusão do Inquérito por duas vezes, tinha que pegar o depoimento da Pediatra. A coitada, em trinta dias, passou por cinco cirurgias plásticas para reconstituir o maxilar, a mandíbula e o nariz, fora os implantes dentários, havia perdido dois dentes.
Quando finalmente conseguiu autorização dos médicos para tomar-lhe o depoimento a filha-de-uma-puta falou que o sexo fora consensual e a agressão foi acidental.
O que injuriou mais o Dr. Delegado foi saber que ela havia contratado advogado para o tarado e iria depor como testemunha da defesa.
Não adiantou muita coisa o tal advogado caro. Dos trinta e oito casos apurados pelo Dr. Delegado (no início prostitutas de rua, depois empregadas domésticas da periferia que levantavam de madrugada para trabalhar nos bairros nobres e finalmente dentistas), dezessete das vítimas testemunharam e o infeliz foi condenado a uma pena que beirava a eternidade, ou seja, ficaria preso somente trinta anos.
...

Seis meses após o julgamento, jantando com um colega que trabalhava na cidade em que se localizava o presídio que servia de residência permanente para o “Predador”, o Dr. Delegado recebeu uma noticia que o deixou mais puto ainda: a Dra. Japonesinha tinha se mudado para uma cidade vizinha, conseguiu um emprego de Pediatra da prefeitura e havia entrado com um pedido para visitas intimas.

Ilustração: http://www.imotion.com.br/imagens/details.php?image_id=6554

domingo, 7 de junho de 2009

A troca

humberto o sousa

Aquele era um daqueles dias em que nada deu certo e para encerrar o dia chegou atrasado na faculdade, perdendo a vaga do estacionamento, próximo ao prédio principal, tendo que estacionar na extremidade oposta.
Contrariado, estava pegando seu material quando ouviu um carro estacionando ao seu lado e o motorista, antes de desligar o carro, deu uma pequena acelerada, isto fez com que tivesse um início de ereção e, somente então, virou-se para olhar para o veículo ao lado.
O carro era um Passat de uns trinta anos, de cor cinza que o fazia pensar em geladeira e que parecia ter sido pintado a pincel. A motorista era uma mulatinha de traços miúdos, nariz fino e arrebitado e os cabelos, cortados chanel, alisados e tingidos de castanho claro.
Ele descobriu que estava apaixonado, pegou suas coisas correndo e saiu atrás dela. Ela era baixinha, tinha passos curtos e ligeiros e, com os pés levemente voltados para dentro, possuía um rebolado duro (com uma bundinha que gritava para o mundo “tenho, mas não te dou”). Decidiu que tinha que descobrir onde era a sala dela, qual o seu nome, o curso que fazia, ele tinha que falar com ela, tinha que lhe fazer a oferta.
Na saída, decepção, a vaga ao seu lado estava vazia, ela já tinha ido.
Nos dias seguintes, ele passou a chegar cedo, mas em vez de estacionar em sua vaga habitual, parava lá no fim do estacionamento e ficava esperando. Ela chegava sempre no mesmo horário, estacionava no mesmo lugar, a mesma acelerada antes de desligar (o que fazia com que ele tivesse ereções), o mesmo caminhar ligeiro de rebolado duro (“tenho, mas não te dou”). E ele a seguia.
Descobriu que se chamava Mariana, tinha 22 anos, estava no 3° de Matemática (ele não a tinha visto antes porque veio transferida de outro campus recentemente), no intervalo, na lanchonete, sempre comia uma esfiha com bastante molho de pimenta e tomava uma coca.
Uma semana depois ele tomou coragem e foi até ela – “Posso te pagar uma coca?”.
- Sim – Sua voz era suave e agradável.
Aproveitou e pagou-lhe também a esfiha e gentilmente foi buscar o molho de pimenta.
Na saída, ele já a estava esperando para acompanhá-la até o carro, e se ofereceu para carregar a sua pesada pasta. Ela timidamente aceitou. Caminharam lentamente até o carro dela, conversando sobre o tempo, sobre os respectivos cursos, sobre as expectativas para o futuro (ela iria ser professora de matemática como a mãe). Quando enfim chegaram aos carros ele lhe disse –“Amanhã e sexta feira, que tal se depois das aulas nos fossemos tomar alguma coisa?”.
- Adoraria, mas só se dividirmos a conta.

O dia seguinte passou lentamente, a ansiedade fez com que as horas não passassem.
Chegou mais cedo que o habitual ao estacionamento e quando ela enfim chegou, vinha com a mãe, que, apesar de branca e loira, era uma cópia envelhecida dela. Alguém já escreveu que para sabermos como será nossa esposa daqui a vinte ou trinta anos devemos olhar para a futura sogra, e ela quando estivesse com uns quarenta anos ainda seria desejável. Despediu-se da mãe, que levou o Passat embora, e foram caminhando, calados, sem nada para dizer um ao outro até o prédio.

Na saída ela já estava esperando, pegaram o carro dele e foram a um barzinho fora do circuito dos estudantes, ele não queria que nenhum conhecido atrapalhasse a conversa que ele tinha que ter com ela.
Depois de duas rodadas de chope, com ela já bem alegre, ele resolveu que era chegado o momento: “Olha Mariana, você deve ter notado que desde que nos vimos pela primeira vez eu tenho demonstrado certo interesse”.
-Eu também, sinto algo desde que te vi pela primeira vez.
Então fez a proposta.
Ela o olhou com os olhos arregalados, não acreditando no que estava ouvindo e sem nada melhor para dizer só perguntou - Pra que?
Contou seus motivos, e ela com lagrimas nos olhos, negou-se com veemência. Ele insistiu.
Ela disse que precisava falar com a mãe, pedir permissão, ele estranhou, mas concordou. Ela levantou e afastou-se da mesa, pegou o celular e, após teclar, começou a falar em voz baixa, tapando com a mão em concha o bocal para abafar o som do ambiente, concordou com a cabeça com algo que a mãe disse e passou-lhe o celular.
“Alo”.
-Por que você deseja trocar um carro praticamente novo por um de trinta anos caindo aos pedaços? Perguntou-lhe a voz autoritária do outro lado.
“Olha, eu sempre quis ter um como este e quando ouvi o som do motor do carro da Mariana sabia que era o que estava esperando”.
-Por que você sempre quis ter um carro como este?
“Eu sei que você deve estar estranhando, trocar um carro de dois anos por um de trinta, assim sem mais nem menos, mas é sonho de infância, ter um Passat verde musgo, teto solar e rodas de liga leve, claro que terei que reformá-lo, mas isso não vem ao caso”.
-Com o dinheiro que você iria gastar não seria o caso de comprar um já pronto, não sairia mais barato?
“A senhora não entende, foi o som do motor”.
-Uma última pergunta, a Mariana tem a mania do pai dela, acelerar o carro antes de desligar, foi isso que chamou tua atenção?
Ele concordou.
-O meu falecido marido tinha a mesma mania, quando ouvi pela primeira vez me apaixonei, só que pelo motorista e não pelo carro, me deixa falar com minha filha.
Devolvi o celular para Mariana, ela ouviu atentamente o que a mãe lhe dizia e desligou, virou-se para ele e disse – Me leve para casa.
O percurso foi feito em um silencio constrangido.
-Tenho que te contar uma coisa, disse ela quando chegaram ao prédio em que ela morava enquanto ele olhava o Passat.
-Não posso me desfazer desse carro, foi o primeiro carro que meu pai comprou, quando conheceu minha mãe era esse carro que ele dirigia e, segundo minha mãe, fui gerada no banco ai atrás. Meu pai sempre dizia que não podia vender por causa disso, e deixou-o para mim.
Minha mãe acha que isto é besteira e que devo aceitar.
“Olha, vou cuidar bem dele”.
-Tudo bem então, mas com uma condição, quando acabar a reforma quero que você me leve para dirigi-lo um pouco.
Ele concordou e eles trocaram as chaves e os documentos
Enquanto ela se dirigia para o portão de entrada do prédio, ele ficou acompanhando com os olhos aquele rebolado “tenho, mas não te dou” dela.
“Bem, até que ela não é de se jogar fora e este banco traseiro parece confortável”.