quarta-feira, 31 de março de 2010

O Nestor morreu!


humberto o sousa

- Mas quando? Ainda ontem à tarde tomamos uma cerveja juntos lá no bar do Bigode.
- Foi lá mesmo que ele morreu, deram dois tiros nele, um na barriga e outro na cabeça.

Qual não foi minha surpresa quando, há uns oito anos, ao atender o toque da campainha, deparei-me com um sujeito de cabelos e barba longos grisalhos, pensei imediatamente em Papai Noel. Achei que já o conhecia de outro lugar:
- Por favor, onde posso encontrar ... Dadá!?
Ao ouvir o velho apelido não tive mais dívidas, era o Alípio. Havíamos servido o Exército, e tomamos muitos porres, juntos há mais de vinte anos.
Abraçamos-nos e a velha amizade logo recomeçou do ponto em que havia parado.
Ele contou que era Delegado de Policia e estava sendo transferido para nossa cidade e procurava uma casa localizada em um lugar tranqüilo e indicaram, que coincidência, a terceira casa além da minha e estava tentando falar com o proprietário. Chamou a esposa, que estava dentro do carro, estacionado em frente à pretendida, entramos, famílias apresentadas, afinidades descobertas.
Liguei para o proprietário da tal casa, e ali mesmo fecharam negócio, quinze dias depois mudaram de mala e cuia.

De um total de trinta e duas casas, somente sete eram ocupadas permanentemente por seus proprietários, alguns dos outros passavam o fim de semana e o restante somente vinham uma ou duas vezes por ano.
Dos sete dois eram aposentados e ficavam à parte dos outros cinco, cuidando de seus jardins e pescando nos finais de tarde, distribuindo peixes frescos para a vizinhança toda. Já Cacau, Nestor, Alípio (Dr. Delegado), Jorge e eu trabalhávamos na pequena cidade próxima e ao final do dia, sempre nos encontrávamos no último boteco da cidade, que ficava bem no fim do asfalto, o famoso Bar do Bigode, na realidade um verdadeiro copo sujo, daqueles que os homens adoram, com sua mesa de bilhar e cerveja sempre no ponto certo.
Deste companheirismo de boteco surgiu uma sólida amizade entre nossas famílias, com churrascos em quase todos os fins de semana ou a reunião para assistir algum jogo de futebol, os homens na sala, as mulheres na cozinha e as crianças só Deus sabe onde.
A coisa toda começou a desandar quando surgiu a suspeita de que o Nestor estava comendo a esposa do Cacau. Ninguém comentava nada, mas nossas reuniões passaram a ser permeadas por silêncios constrangidos.

Naquele sábado cedo estava eu tranquilamente podando a trepadeira do muro da frente quando vejo o Dr. Delegado sair da casa dele, só de sunga, garrafa térmica em uma das mãos. Entrou em minha casa, sem pedir licença, voltou com uma cadeira e dois copos, sentou-se e colocando um dos copos entre as pernas, encheu o outro com o conteúdo da garrafa, era caipirinha de vodca, e me passou.
Com o copo na mão acomodei-me no chão ao seu lado, e, antes de tomar o primeiro gole, ele disparou:
- O Nestor morreu!
- Mas quando? Ainda ontem à tarde tomamos uma cerveja juntos lá no bar do Bigode.
- Foi lá mesmo que ele morreu, deram dois tiros nele, um na barriga e outro na cabeça.
- Quem?

Na quinta feira anterior, três horas da tarde, o Nestor me liga dizendo que estava indo para a cidade (quando neste horário ele deveria estar na cidade trabalhando, será que ele não estaria visitando a mulher do Cacau?), e quebrou o amortecedor ao passar por um dos vários buracos existentes na estrada, eu não poderia ir socorrê-lo?
Claro que podia. Peguei meu carro e fui buscá-lo e deixei-o no mecânico que iria voltar com ele para ver se foi realmente o amortecedor e voltei para o serviço. Só voltei a encontrá-lo na sexta feira a noite lá no Bigode.
Tomamos uma cerveja juntos, e ele perguntou se eu tinha visto o carro dele, falei que não, e ele foi mostrar-me.
Alguém tinha, aos de socos e pontapés, feito mossas enormes nas laterais e no capô do veículo. Perguntei se ele sabia quem foi, disse que não mas um dia iria descobrir. Perguntei se iria para a casa, disse que não, tinha que ir a uma reunião na OAB da cidade e somente estaria livre lá pelas dez. Foi a ultima vez que eu o tinha visto.
O Alípio ouviu atentamente meu relato, em seu rosto não havia um pingo de amizade, somente a frieza do profissional querendo a verdade.

-Conte-me o que aconteceu, pedi.
- Bem, lá pela meia noite o Bigode me ligou. Era para ir urgente. Mataram o Nestor. Fui imediatamente. Chegando lá encontrei a vitima imóvel caída em meio à uma poça de sangue. Verifiquei os sinais vitais e não havia nenhum, constatando que estava morto. Interroguei o Sr. Bigode e ele fez o seguinte relato: a vitima, Sr. Nestor adentrou em seu estabelecimento por volta de 22:30 (vinte e duas horas e trinta minutos), pediu uma cerveja e foi prontamente atendido. A testemunha afirma que ficaram conversando até as 23:00 (vinte e três horas), quando chegou o indivíduo conhecido pela denominação de Cacau, sentou-se com a vítima e passaram a animadamente conversar sobre futebol, ambos, pelo que todos sabiam, torciam pelo mesmo time, tomando várias garrafas de cerveja. Após certo tempo o Sr. Nestor começou a falar de seu veículo, afirmando que “Quando descobrisse o corno filho da puta que havia feito aquilo” iria quebrar a cara dele. Ao ouvir isto o Sr. Cacau levantou-se foi até o seu próprio veículo e voltou portando um revolver, aparentemente calibre 22, e disparou o primeiro tiro no abdômen da vitima e gritando que “Pode me chamar de corno, eu sou mesmo, mas não admito que me chame de filho da puta” e efetuou o segundo disparo na cabeça do falecido. Pelo relato da testemunha, o suspeito pediu a conta e, após paga-la, evadiu

sexta-feira, 5 de março de 2010

Futebol é para macho


humberto o sousa

Um, João Paulo, conhecido como Paulinho, tinha 1,74 m e 22 anos. Veio do nordeste para jogar no interior de São Paulo, em uma cidade marcada pela rivalidade polarizada entre os torcedores de dois times.
O outro, João Carlos, conhecido como Carlão, tinha 1,80 m e 22 anos. Veio do sul para jogar no interior de São Paulo, em uma cidade marcada pela rivalidade polarizada entre os torcedores de dois times.
Um, o Paulinho, atacante rápido e técnico, marcará quatro gols nos primeiros três jogos do campeonato paulista. Outro, o Carlão, era um volante com uma marcação leal, mas dura, roubava a bola e fazia lançamentos certeiros de mais de quarenta metros, marcou um gol e passou a bola para que dois outros fossem marcados do total de seis do seu time nos três primeiros jogos do campeonato paulista.
A próxima rodada seria decisiva para os dois times, haveria confronto direto. A imprensa da região já anunciava o clássico do século. A polícia passou a semana toda atendendo ocorrências envolvendo os torcedores de ambos os times, qualquer discussão de quem seria o melhor, Paulinho ou Carlão, descambava em quebra-quebra.

O “derby” seria no domingo e já na quinta os presidentes dos dois times tiveram que cancelar as respectivas agendas para convocarem juntos às emissoras de rádio e televisão locais uma entrevista coletiva para pregar a paz, na verdade eles somente conseguiram elevar mais a temperatura e a intransigência das torcidas. A entrevista estava ocorrendo relativamente bem até que o repórter do maior canal de televisão da região fez uma pergunta capciosa e, bem na hora do almoço, em frente às televisões, a maioria dos moradores da cidade foram testemunhas de uma cena deprimente: “se as ofensas que os dois presidentes vinham trocando há meses não estariam influenciando os ânimos dos torcedores dos dois times”. Os presidentes sem acreditar no teor da pergunta, afinal eles estavam ali para apaziguar os torcedores e vinha este repórter de merda colocar lenha na fogueira, olharam fixamente para o repórter, depois se entreolharam e, esta troca de olhar fez com que velhas feridas fossem abertas, o mais extrovertido dos dois pegou o microfone e disparou: ”Escuta aqui seu porra, para tentar a paz fui obrigado a aturar esta bicha louca a manhã toda e você vem fazer esta pergunta do cara...”. Antes que ele concluísse a frase o outro lhe atirou uma garrafa de água no rosto, se levantou e partiu para cima distribuindo soco e pontapés. O repórter tentou apartar, mas depois de ter tomado uns tapas “acidentais” acabou desistindo.
Nos telejornais noturnos a cena foi retransmitida para todo o território nacional, com entrevistas de ambos os lados falando em processos por ofensa moral, injúria e danos físicos.

Enfim domingo, dia do grande jogo. As Polícias da cidade solicitaram reforços nas cidades vizinhas e passaram a patrulhar ostensivamente os pontos críticos e os principais caminhos para o estádio. Ocorreram poucos incidentes, havia a suspeita de que as torcidas esperariam para partirem uma para cima da outra ao final da partida e o comandante da Polícia Militar rezava a todos os Deuses que realmente as agressões ocorressem “após” a partida e não “durante” a partida, pois, se isso acontecesse seria uma tragédia maior do que a primeira opção porque ocorreria em ambiente fechado, sem lugar para fugir em caso de pânico.
Começa a partida e todos notaram que a função do Carlão em campo seria ser a sombra do Paulinho e lá pelos vinte minutos do primeiro tempo nenhum dos dois ainda não haviam realizado nada: Paulinho não conseguia ficar desmarcado para receber a bola e o Carlão não armava nada e nem era o paredão na frente dos zagueiros de seu time. O jogo estava burocrático e tedioso. Aos trinta há um escanteio para o time do Carlão e ele vai para a área adversária para tentar o cabeceio, Paulinho vai atrás para marcá-lo, durante o empurra-empurra antes da cobrança o Carlão se vira e dá um murro no rosto do Paulinho que cai desacordado, soube-se depois que perdeu dois dentes e teve fratura do maxilar e suspeita de uma concussão craniana, foi internado. Carlão é expulso na hora. Começa a briga, tanto em campo, quanto nas arquibancadas. Parte dos torcedores invade o gramado, a policia já não consegue dominar a situação e começa a lançar gás lacrimogêneo, o trio de arbitragem, mais o quarto juiz, abandona o campo, diretores de ambos os times trocam sopapos. O representante da federação e o comandante da tropa da Policia Militar se reúnem com os presidentes dos times e chegam à conclusão de que é melhor suspender o jogo para uma nova data em campo neutro. A situação somente foi controlada após três horas com o saldo de um morto e uns oitenta gravemente feridos.
Inicialmente Carlão, no domingo à noite, é tido como o grande responsável pela tragédia. As grandes redes o caçam para uma “exclusiva”, mas ninguém sabe onde encontrá-lo. Quando os médicos autorizaram, Paulinho dá sua entrevista dizendo que não guardava rancor, que ele e o Carlão já se conheciam desde os 18 anos, quando participaram de uma Copa São Paulo de Futebol Junior e já haviam disputado um Sul-Americano pela seleção brasileira sub-vinte, quando dividiram o mesmo quarto na concentração e nos hotéis, não se tornaram amigos, mas sempre tiveram certas afinidades, até passaram a jantar juntos de vez em quando desde que passaram a jogar nos atuais times, etc e tal.
Na quarta surgiu um vídeo na internet de uns vinte segundos em que mostrava o real motivo da agressão: Paulinho, não uma, nem duas, mais várias vezes, enfiava o dedo médio no rabo do Carlão que tentava defender-se dando tapas na mão do Paulinho, até que em um momento de extrema irritação deu o tal soco.
Na quinta pela manhã os jornais estampavam as fotos, em seqüência, tiradas do vídeo e, enfim, os telejornais na hora do almoço absolveram o Carlão. Se pegaria ou não uma pesada suspensão não tinha importância, o importante era que ele provou que era macho e não aceitava desaforos.

No apartamento do Paulinho, sentados no sofá, assistindo televisão bem juntinhos, Carlão, sim era lá que ele fora se esconder, implorava que Paulinho o perdoasse pelos dois dentes e lhe jurava amor eterno.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Karma


humberto o sousa

Ele acordou com batidas na porta da cozinha, o que o deixou assustado, pois, seria impossível alguém vindo da rua ter acesso a esta porta, então, consequentemente, era alguém que havia pulado o muro dos fundos. A mãe estava no trabalho e ele, havia acabado de dar baixa do Exercito e como era final de novembro decidiu que somente voltaria ao seu emprego em janeiro, estava sozinho em casa. Procurando não fazer muito barulho, abriu a gaveta do gabinete da pia e pegou uma faca, caminhou lentamente até a porta e a abriu, tomando o cuidado de colocá-la entre ele e o visitante, a faca, firmemente presa em sua mão esquerda, preparada para o que desse e viesse.
Era a Luzia, filha da vizinha do lado esquerdo, um ano mais nova do que ele e meio metida a besta, mas um tezãozinho.
O que aconteceu em seguida foi tão rápido que ele, muito tempo depois, ainda tentava compreender a real seqüência dos fatos.
Ela entrou rapidamente e fechou a porta atrás de si, atirou-se contra ele e beijou-lhe ardentemente os lábios, depois, pegando-lhe a mão direita, começou a arrastá-lo para a sala.
No corredor ele vê a sua carteira e, lembrando as palavras de seu Sargento: ”Nunca envie este pau imundo em lugar nenhum sem camisinha”, se solta de sua condutora para pegar um preservativo e só então nota que ainda segurava a faca.
Na sala, entre beijos, tiram a roupa. Ele deita-se no sofá e ela deita por cima, começam a se esfregarem e ela vai conduzindo, com o corpo, o pênis dele para a entrada de sua vagina e o que ele sentiu na ponta de seu pênis fez com que recuasse finalmente lúcido desde a entrada tempestuosa dela.
- Que houve? – ela pergunta e ele percebe que estas foram as primeiras palavras dela desde que chegou.
- Você ainda é virgem;
- E daí? Não quero mais ser.
- E que acho que não tenho o direito de tirar a tua virgindade. Somos vizinhos há uns dez anos e mal trocamos uma dúzia de palavras neste tempo.
Ela foi surpreendida pelo que ele falou e ele logo se arrepende de ter dito e tenta consertar:
- E você sempre pareceu nunca prestar atenção em mim. Em uma festa, há uns anos, acho que foi no aniversário da Marcinha, te chamei pra dançar e você perguntou se eu não me enxergava.
- É que eu sempre gostei de você e daquela vez você me pegou de surpresa e respondi sem pensar.
- Mesmo assim não vou tirar tua virgindade.
- Tudo bem, quero você e não importa como.
Durante a próxima hora eles fizeram de tudo um pouco até ficarem saciados e ela permaneceu virgem.
- Você me ajuda a pular o muro de volta?

No dia seguinte ela voltou a visitá-lo, novamente saltando o muro e novamente voltando para casa virgem, porem satisfeita.
Ela voltou somente seis meses depois.

Era maio, a empresa em que trabalhava ganhou contrato para uma obra no Kuwait, o salário era o triplo do que ganhava no Brasil e em dólares ainda por cima. Inscreveu-se, fez os testes psicológicos e os exames físicos, foi aceito, iria embarcar dali à quinze dias, sua mãe chorava pelos cantos, de saudade antecipada, mas conformada, pois o contrato assinado era somente de dois anos.
Acordou naquela manhã com a já reconhecível batida na porta da cozinha, era Luzia, que cabisbaixa, timidamente entrou cozinha adentro.
- Soube que você vai trabalhar fora do Brasil, é verdade?
- É, Surgiu a oportunidade de fazer um pé de meia e eu estou aproveitando.
- E a faculdade?
- Tranquei matricula, volto daqui a dois anos e retomo.
- Não sou mais virgem, você não quer se despedir de mim?
Claro que ele queria.
Desta vez foram para o seu quarto, dividindo a estreita cama de solteiro.
Ele não sabia o que era Nirvana, mas provavelmente seria algo semelhante (depois, os dois conversando, ele descobriu que ela havia experimentado algo parecido), pouco antes do clímax ele sentiu como se sua alma se desprendesse do corpo e do alto, junto ao teto, observava os dois se amando. Foi uma experiência que jamais se repetiu com mulher alguma.

Já estava no Kuwait há treze meses, quando recebeu carta da mãe avisando que Luzia havia casado. Sentiu uma tristeza profunda, um sentimento de perda, somente afogado com trabalho em excesso.
Ao fim de seu contrato, renovou por mais dois anos, não queria retornar ao Brasil, apesar da saudade que sentia da mãe.
A obra do Kuwait acabou após três meses e ele foi realocado para o Iraque, com uma pequena promoção. Foi lá que recebeu a notícia do falecimento da mãe, em telex remetido pelo escritório central da empresa que trabalhava.
A chefia da obra comunicou-lhe que estavam tomando providências para o enterro da mãe e para o seu retorno ao Brasil, tinha três férias acumuladas. Ele agradeceu, mas recusou as férias, se fosse possível ele gostaria de continuar trabalhado.
Recebia somente trinta por cento de seu salário, o restante era administrado pela mãe, que depositava em uma poupança, preencheu os formulários passando este encargo para a empresa, deveriam cuidar da manutenção e pagar as contas da casa depositando o restante, devendo a chave ser entregue para dona Maria Lúcia, mãe da Luzia.
Dona Maria Lúcia passou a escrever-lhe regularmente atualizando notícias da filha, será que ela sabia de alguma coisa sobre os dois?
Luzia havia tido um filho “que por coincidência chama João Carlos como você”, que o marido de Luzia havia entrado em depressão e havia suicidado “pedi para a tua mãe não te contar”, que Luzia estava noiva e iria casar-se novamente e por aí vai. Se a notícia do suicídio do primeiro marido o havia deixado com alguma esperança o novo casamento enterrou-a.

Os dois anos iniciais no Iraque transformaram em seis e meio. Finalmente ele iria voltar ao Brasil, pelo menos por seis meses, férias acumuladas. Depois ele veria se continuaria no Brasil, voltaria para o Iraque ou iria para uma de duas obras novas: Congo ou Bolívia.
Dona Maria Lúcia, ao receber a notícia de sua volta, mandou limpar e arejar a casa, abasteceu a despensa, as despesas foram todas ressarcidas pela empresa, mediante a apresentação dos recibos.
Ao entrar em casa, depois de tanto tempo, bateu-lhe uma profunda melancolia: recordações da infância, arrependimento por não vir ao enterro da mãe e muita saudade dela e, principalmente, a insatisfação por seu amor a Luzia.
Dona Maria Lúcia vem lhe trazer um pequeno lanche, estavam no meio da tarde, e enquanto ele come, ela, sentada a sua frente, conta que Luzia estava morando no interior e, quando soube de sua vinda, avisou que viria passar uma semana com ela, chegaria na manhã seguinte.
A ansiedade de tornar a vê-la fez com que tivesse, apesar do cansaço, uma noite péssima. Sua mente vagava em fantasias febris, que variava entre ela ainda ser a mesma garota de seis anos atrás, ainda virgem, até estar em uma obesidade relaxada, dente podre e suor fétido.
Pela manhã, já de plantão junto à porta da cozinha, abriu-a a primeira batida.
Luzia estava somente um pouquinho mais gorda, uma pequena cicatriz em seu supercílio esquerdo e o nariz, que ele descobriria depois que havia sido quebrado pelo último marido, levemente torto realçavam a beleza de seu rosto.
Não trocaram uma palavra sequer. Na sede da paixão transformaram a mesa da cozinha em leito de núpcias. Novamente ele alcançou o Nirvana.

- Quer se casar comigo?
- Te amo de mais para me casar com você.
- Não entendi o paradoxo.
- Minha mãe diz que tenho um carma ruim para homem. Aquele meu namorado, o que me tirou a virgindade, ficou tetraplégico, quebrou o pescoço ao pular na piscina. Meu primeiro marido suicidou. Tive um noivo que morreu em um acidente de carro. Meu último marido, era um amor de pessoa, de repente passou a me espancar todos os dias e está preso por ter matado um rapaz que, pensando que eu estava desacompanhada, me chamou de gostosa, estou me divorciando.
- Tudo isto é coincidência.
- Pelo sim e pelo não, nunca assumirei compromisso com você. Depois do divorcio virei morar aqui com a minha mãe e continuarei pulando o muro.
- Mandarei construir uma escada. O meu karma é esperar você pular o muro.

domingo, 8 de novembro de 2009

Quando a violência policial não (?) se justifica

humberto o sousa


Conheço o Zezinho há quinze anos, nem bem descarregamos a mudança e ele já estava tocando a campainha oferecendo os seus serviços de trabalhador free-lance (biscateiro).
Ele deveria ter uns dezoito anos nesta época e durante os quatro anos seguintes ajudou-me a cortar grama e trepadeira, reparar instalações elétricas, pintar a casa, etc.
Eu e minha esposa fomos seus padrinhos de casamento, nasceu-lhe o primeiro filho e ele deixou a vida de biscateiro conseguindo um emprego fixo e, tendo renda mensal líquida e certa, pôde enfim deixar de morar com a sogra e alugar uma casinha.
Como tudo começou a dar errado eu sinceramente não sei, só sei que, ao sair do trabalho, passou a freqüentar botecos, daqueles conhecidos como “copo sujo”, somente indo para casa depois de estar completamente bêbado. Nenhuma esposa agüentaria isso e a dele não agüentou, pegou a mala e o filho e voltou para a casa da mãe, como ele não tomou nenhuma medida para trazê-la de volta, todos comentaram que ele nem deve ter notado que ela se foi.
Perdeu o emprego e voltou a fazer biscates, claro que ele não agüentava mais o batente, mesmo assim eu voltei a chamá-lo para me ajudar, não fazia nada, mas me distraia ouvir as suas aventuras boemias. Esta boa ação somente durou até eu pegá-lo fumando um cigarro de cheiro estranho na varanda de minha casa. Coloquei ele para correr.
Soube que ele havia se amigado com uma senhora uns vinte anos mais velha do que ele e bebia a mais na mesma proporção. Morava o casal mais a filha dela, viúva, e os dois netos da anciã. O romance acabou abruptamente quando a velhinha acordou de um porre e pegou o Zezinho na cama com a sua filha. Sob ameaça de ser capado, Zezinho fugiu levando junto a filha, deixando os netos para trás.
Sempre que me via pedia uns trocados, minha esposa quando fazia compras no mercado, não se esquecia de comprar alguns mantimentos para ele e a atual amante.
Começaram as prisões: furto, assalto a mão armada (canivete), posse de substâncias ilegais etc. O Delegado contou para minha esposa que somente o prendia quando precisava saber quem estava vendendo “crack”, não precisava nem perguntar “Zezinho, você ta comprando droga de quem?”. Ele já entrava na sala falando “Seu Delega, fulano é quem tá me vendendo”.

Estou contando a história do Zezinho para que entendam que o principal personagem deste escrito é responsável pelo título.

Há uns quinze dias atrás tive um problema elétrico com meu carro, como moro na zona rural, caminhei alegremente os sete quilômetros até a cidade sob um Sol de assar leitão à pururuca. O eletricista falou que o problema era simples, para ele não para mim, era só trocar o miolo da chave de partida, confesso que fiquei imaginando como ele ia trocar o miolo da minha chave, pediu para eu esperar trinta minutos, era o tempo que levaria para acabar o serviço que estava fazendo e partiríamos, como era “simples” , ele já levaria a peça e faria o serviço lá mesmo em minha casa (levou cinco minutos para consertar a droga do meu carro, realmente era simples).
Fiquei sentado na porta da oficina e de repente acabou o sossego.
Lá vem o Zezinho em desabalada carreira pela rua, com metade da cidade atrás querendo linchá-lo, a sorte dele é que chegou uma viatura policial. Os dois policiais desceram, era o Kabim (“baixim, pretim, espevitadim e com cara de bobim”) e o Hulk (“grandão, bundão, ignorantão, ... um monte de ão ... acabando com cara de bobão”).
Protegeram Zezinho e perguntaram para a turba enraivecida o que estava acontecendo, eu havia me aproximado para ouvir também, e o ocorrido foi o seguinte: Dna ... havia ido ao mercado comprar fraudas para a filha, saibam que ela tem dezoito anos e idade mental de três, e quando voltou encontrou aquele filho de uma puta, desculpa para a tua mãe Zezinho, ela é uma santa e não merece o filho que tem, beijando a sua filha seminua.
Perguntaram para o Zezinho se era verdade, respondeu que era, ele estava passando por ali e viu a Dna ... saindo, deixando a casa aberta, resolveu entrar para pegar alguma coisinha para fazer dinheiro, quando viu aquele mulherão, nua da cintura para baixo, rindo feito boba para ele, com ou sem paralisia cerebral ele resolveu traçá-la e foi aí que a mãe dela voltou e aprontou aquele escândalo, e ele teve que fugir.
Kabim mandou Zezinho se virar para ele por as algemas, na maior educação, o problema é que quando ele se virou, já pondo as mãos para trás, ele viu o Hulk, segurando o riso e com cara de deboche. Zezinho não pensou duas vezes e antes que alguém pudesse impedi-lo partiu para cima do Hulk, pulando com os dois pés no peito dele, jogando-o ao chão, o policial, ágil como um gato, levantou com um salto e desceu o braço no Zezinho, que caiu. Nunca vi ninguém apanhar tanto na vida, fiquei com pena mas a platéia estava aplaudindo e incentivando o policial a chutar mais. Por fim o Kabim conseguiu conter o companheiro e transportara o infeliz para a delegacia semi-desfalecido.

Ontem, sábado, pela manhã, sai do serviço e no caminho para a padaria cruzei com o Zezinho, mais enrolado em bandagens que uma múmia. Naturalmente ele me parou para pedir uns trocados e eu naturalmente dei foi quando ele lascou a pergunta: “Cumpadi, cê tava lá quando me prenderam?”, respondi que sim e ele, com um sorriso safado no rosto, faz a seguinte comentário:”Se você acha que eu apanhei muito, deveria ter visto o tanto que apanhei na delegacia”, e vai embora.
Fico pensando com meus botões que ele mereceu tudo o que recebeu.

domingo, 25 de outubro de 2009

O último convidado.

humberto o sousa

Ele ficou contente com o convite dela. E pensar que até três dias atrás, somando os sete anos que estudavam na mesma classe, ela mal lhe havia dirigido meia dúzia de palavras.
Tudo começou quando o professor de Química resolveu que a prova daquele bimestre seria feita em duplas determinadas por ele e, para felicidade dele, escolheu ela como sua parceira. Marcinha que nunca havia tirado nota maior que seis em Química, naquela prova tirou dez.
-Roberto?
“Marcinha, meu amor, pode me chamar de Beto”, ele pensa dizer, mas somente diz: -Sim?
-Sábado é meu aniversário e vai ter um bailinho lá em casa, você gostaria de ir?
“Com toda certeza, como já esperava o teu convite já comprei até o presente”. –Claro.
-Vai começar às oito da noite. Daria para você chegar um pouquinho mais cedo para me ajudar a organizar umas coisinhas?
-Tá.
Ela abre a bolsa e lhe dá um convite com o seu nome escrito.

Chega em casa feliz da vida. A mãe pergunta-lhe se viu o “passarinho verde”. E ele conta que a Marcinha o convidou para a festa de aniversário dela no Sábado e que ele iria precisar de roupa e um par de sapatos novos, afinal nunca ninguém havia convidado ele para nada e será que ela, a mãe, não poderia ajudar-lhe a comprar um presente para a Marcinha, afinal ela era a melhor amiga dele e eles estudavam juntos desde a quinta série.

Enfim chega o sábado.
São sete e meia da noite e ele já estava no portão da casa da Marcinha tocando a campainha. O pai dela é que vem atender:
-Você que é o Roberto?
-Sou.
-A Márcia está se trocando. Você sabe como são as meninas, levam horas para se trocarem.
-Sei.
-A Márcia me disse que você a ajudou na prova de Química, que você é um bom garoto e que não tem muitos amigos.
Ao ouvir o elogio ele cora envergonhado, mas, a menção de que não possuía amigos, aos poucos a vermelhidão vai se convertendo em raiva.
-Não fique com vergonha, ter poucos amigos às vezes é vantajoso. Veja meu problema, toda festa que nos damos enche de “penetras”. Para resolver o problema desta vez resolvemos distribuir convites e se eu colocar uma pessoa com muitos amigos aqui para conferi-los, esta pessoa provavelmente vai colocar para dentro todos os amigos que tiver, com convite ou sem convite, tornando-os inúteis.
-Entendo.
-Então eu gostaria de te pedir um favor.
-Pois não.
-Você poderia ficar aqui no portão recebendo os convidados?
-Posso.
-Não é por muito tempo, só foi distribuído vinte convites e cada convite dá direito a duas pessoas entrarem.
-Entendi.
O pai da Márcia faz-lhe um carinho no ombro e se afasta em direção a casa, mas volta na metade do caminho.
-Quando entrar o último convidado você poderá aproveitar a festa.
Os convidados começam a chegar e ele vai pegando os convites. Os colegas de classe ficam admirados por não saberem que ele era intimo da família da Marcinha.
Lá dentro começam os risos, a música e pedaços de conversas entreouvidas no intervalo das músicas.
Lá pelas tantas ele olha o relógio, já passava das dez.
Mais dez minutos e o pai da Márcia vem com um pratinho de salgadinhos e uma lata de refrigerante. Ele agradece a gentileza.
-Já tem quantos convites?
-Dezoito - ele responde de cor, ele contava os convites a cada convidado.
-Você vai ter que ficar aqui mais um pouquinho.
Nesse momento chega mais um convidado, só ficou faltando um.
-Roberto, te vejo lá dentro, o último convidado não deverá demorar muito – diz o pai, retornando para a festa.
A meia noite chega e os primeiros convidados já estão partindo e ele continua lá, esperando o último convite, xingando o filho da mãe até a última geração.
Marcinha vem e lhe entrega um pratinho de bolo e pergunta-lhe porque ele ainda estava ali fora.
-Esperando o último convidado – Ele diz entregando-lhe o presente que a mãe havia comprado.
-Me deixaeu conferir quem não veio.
Ele lhe entrega os convites e ela começa a ler os nomes nos envelopes, depois ela os conta.
-Roberto, tem dezenove convites aqui e só está faltando o teu.
-O meu?
-É.
Ele tira o último convite do bolso da calça e o junta aos restantes.
Ele está se sentindo um verdadeiro pateta.

domingo, 13 de setembro de 2009

A receita

humberto o sousa



-Hoje acordei com vontade de ir à Londres de novo.
Ela pergunta: - Você já foi a Londres?
-Não, é que semana passada também tive a mesma vontade.
Ela sorri e ele pensa que ela está rindo da piada dele. Na verdade ela está rindo dele, como uma pessoa de trinta anos podia ser tão imbecil?
Ela já estava namorando ele há um mês, detestava-o desde a primeira vez que ele lhe dirigiu a palavra. Ela havia prometido ao avô que arranjaria um namorado e o levaria para a festa da igreja e, como não negava nada ao avô, teria que agüentar este babaca, que ela escolheu a dedo, até lá.
Ela tinha vinte e dois anos, um metro e sessenta, bonita, cabelos negros e olhos verdes. Não possuía um corpo perfeito, ela era daquelas mulheres magras que tinha os quadris largos e as coxas finas, ficando um vão enorme entre as pernas. Como dificilmente usava calça a maioria das pessoas achava que ela era evangélica.
Ele tinha quase dois metros, cento e vinte quilos e até para ir à padaria da esquina ia de carro. Ele naturalmente se sentia poderoso diante dela, protetor.
- Uma formiga chegou para a outra e disse: “Meu nome é fumiga e o teu? ’
E a outra respondeu - ‘Ota”.
Ela sabia onde aquilo ia dar outra piada sem graça, mesmo assim perguntou - Ota o quê?
- Ota fumiga. E ele dá uma imensa gargalhada.
Ela até que poderia se apaixonar por ele. Se a situação fosse outra, casariam, teriam filhos e ela o protegeria das durezas e injustiças da vida, mas ela estava impedida pelas condições do avô, então o odiaria e fim de papo.
- Sabe, no fim de semana tem a festa da igreja matriz, lá em minha cidade, terei que ir e gostaria que você fosse comigo.
- Mina, com você, e por você, vou até o inferno.
- Então agente sai na sexta feira à noite. Só não diga para ninguém onde você está indo, algum amigo teu poderia querer ir. Quero um fim de semana somente para nós dois, afinal vou te apresentar minha família.
Enfim sexta feira, ele aguardava ansiosamente este dia. Tinha a esperança de que iria finalmente come-la.
Ela o está aguardando em frente ao prédio dela, de bagagem somente uma bolsa. Ele pergunta se ela não tem nenhuma mala e ela responde que tem roupas de sobra no sítio do avô.
Ela diz que iriam no carro dele, mas seria melhor ela ir dirigindo. Ela sempre confundia esquerda com direita na hora de explicar o caminho para alguém. Ele, querendo deixá-la feliz, concorda.
Ela dirigiu a noite toda e, sempre que possível, por estradas secundárias. Ele perguntou-lhe o porquê disto e ela respondeu que não gostava de pagar pedágio. Na verdade ela estava era fugindo das câmeras de segurança, que certamente filmariam o carro e, na investigação policial que aconteceria no futuro, esta imagem poderia aparecer.
Chegaram ao sítio do avô logo após o nascer do sol. O avô já estava de pé e os esperava na varanda da enorme casa, abraça a neta e cumprimenta o namorado, dirigindo à neta um olhar de aprovação.
- Fico feliz que tenha vindo com minha neta, ele diz. Há mais de cem anos nossa família faz quitutes para a festa da igreja da cidade. Minha filha sempre me ajudou no preparo dos pasteis que serão vendidos na quermesse, mas como morreu em um acidente no ano passado, é minha neta que terá que me ajudar. Se você não tivesse vindo com ela, veja a carinha de felicidade dela, ela não estaria tão feliz e os pastéis não ficariam gostosos e o padre brigaria comigo.
E o avô continua falando sem parar, ele mal tem tempo para pensar.
- ... Sei que estão cansados, mas insisto que você venha ver os animais que crio. São animais silvestres, claro que tenho autorização do IBAMA, vendo a carne para restaurantes de São Paulo e do Rio. Também exporto.
E vai conduzindo os dois para os cercados onde estão os javalis, pacas e antas.
Depois insiste para que ele veja as instalações onde as carnes eram processadas.
A construção, com seus azulejos e pisos brancos, bancadas e pias de aço, tem uma aparência de higiene e limpeza.
Ela caminha logo atrás deles e em determinado momento o chama, obrigando-o a se voltar para ela. Ela segura seus braços e o olha com um olhar triste.
Ele não vê que o velho, atrás dele, pega uma pesada barra de ferro.
A última imagem que ele viu foi o rosto dela sendo coberto com sangue e fragmentos de uma substância esbranquiçada que ele sabia ser o cérebro dele. Como já estava morto ele não viu que ela limpava o rosto com as pontas dos dedos e os levava à boca e em seus olhos não havia mais tristeza e sim uma voracidade animalesca.

Naquela noite ela e o avô venderam mais de quinhentos pasteis de carne, que foram muito elogiados e, como sempre, todos perguntavam que carne que eles usavam e eles respondiam que era uma mistura de carnes de caça, cuja receita era segredo de família.

domingo, 30 de agosto de 2009

Pregação

Escrito por Divina Scarpin

“Irmãos, estamos aqui, nesse lugar sagrado, para adorar a Deus, aquele que nos criou e que criou o mundo em que vivemos. É graças a Deus que temos vida, que temos alimentos, calor, abrigo, tudo! Deus é nosso pai e seu amor infinito faz de nós, seus escolhidos, os merecedores de sua graça. É por Deus que existimos, é graças a Ele que respiramos. Aleluia, irmãos!
Mas tem aqueles, aqueles seres sem fé e sem amor no coração, ímpios, pecadores que não reconhecem a grandeza e a bondade do Pai e que questionam seus desígnios. Ah, irmãos, não se deixem enganar por esses demônios pecadores, eles queimarão para todo o sempre no inferno!
Esses hereges dizem que não existe Deus! Eles dizem que se Deus existisse não existiriam coisas ruins no mundo. Dizem que se Deus existisse não existiria morte, não existiria fome, não existiria dor. Mas eles estão errados, irmãos. Deus não quer o mal, Deus não faz o mal, o mal vem de nós mesmos! Nós somos a causa do mal, é a falta de fé em Deus que traz o mal, a morte, a fome, a dor. Quem ama a Deus não teme o mal. Quem ama a Deus aprende com o mal e não dá ouvidos aos ímpios, nunca!
Quando cai sobre nós a fumaça que fecha nossos poros, nos impede de respirar e mata muitos de nós, ela é o mal vindo de Deus? Não irmãos! Aquela fumaça é o castigo enviado por Deus, é o castigo pelos que pecaram em atos e em pensamentos. Mas Deus é bom e faz nascer o bem até mesmo do mal. E o que acontece irmãos? Graças a Deus a fumaça vai se enfraquecendo e muitos de nós criamos resistência a ela e não sofremos mais.
Por que é que isso acontece? Acontece porque Deus nos ama e quer nos mostrar que a fé supera a morte, a fumaça deixa de ser mortal e o povo de deus resiste! A fumaça não nos extermina! É uma lição irmãos, é uma provação para que nos tornemos mais fortes em nossa fé! Mas os ímpios não se convencem! Eles continuam a blasfemar contra Deus e por isso a fumaça um dia volta mais forte e mata mais de nós. Novamente Deus tem piedade e nos faz resistentes, novamente a fumaça enfraquece e Deus espera que aqueles que sobreviveram tenham aprendido a lição. Enquanto houver pecadores, enquanto houver infiéis, a fumaça sempre voltará. É preciso, irmãos, eliminar os hereges! É preciso, irmãos, apagar o pecado da face da terra! É preciso que todos tenhamos fé para que deus não mande mais a fumaça.
E a prancha que cai sobre alguns de nós e nos esmaga? Irmãos, acreditem, a prancha é um aviso de Deus, Ele quer que sejamos perseverantes em nossa fé, Ele quer que sejamos rápidos e que não nos deixemos tomar pela ganância. Muitos saem em busca de alimento e diante da fartura se deixam possuir pela gula, querem mais do que precisam, não lhes basta que Deus lhes tenha dado abundância para que tomem o que necessitam, querem mais, demoram-se junto ao alimento e de lá não saem quando saciados. Não ouvem o mandamento de Deus que ordena que não nos deixemos cair na tentação da gula, não se lembram de Deus, não pensam em Deus, não se mostram humildes perante Deus! E a prancha cai sobre eles e os esmaga. Essa é a razão, irmãos. É o pecado da gula que mata, não a prancha, não Deus!
Temos que combater os hereges entre nós para evitar a fumaça de veneno, temos que combater o pecado dentro de nós para evitar a prancha esmagadora. Temos que ser puros e tementes a Deus, temos que perseverar em nossa fé porque assim Deus será também perseverante em seu amor.
Não esqueçam, irmãos! Combatam os hereges, os ímpios, os pecadores, não dêem ouvidos ao mal. Combatam o pecado fora e dentro de vocês! Não se deixem vencer pela gula, sejam humildes diante da fartura e fiéis diante do Senhor. E, agora, vão em paz irmãos!” E os fiéis se dispersaram entre as frestas das paredes em meio à escuridão.


No outro dia, quando amanhece, os moradores da casa encontram, no chão da cozinha, três baratas mortas. “Pensei que o inseticida não estivesse mais fazendo efeito”, comenta a mãe.

Publicado originalmente em: http://vida-cadela.blogspot.com/2009/08/pregacao.html