terça-feira, 28 de julho de 2009

Dúvida

humberto o sousa


Durante treze dias menti, as crianças perguntam: “cadê mamãe”, respondo: “tá viajando, o vô tá doente e ela foi cuidar dele”.
Não tenho coragem de contar para eles. Até o bilhete deixado pela maldita trago dobrado na carteira e, sempre que a raiva está esquecida, pego e releio. Não posso deixar esta raiva morrer nunca. Na primeira oportunidade vou lá e mato ela na frente dele. Depois o capo. Só não fui ainda porque não me decidi se o capo na frente dela e depois mato ela na frente dele.
Ninguém ainda sabe do acontecido. Sou sargento da polícia, se todos ficam sabendo acabou minha moral, nenhum bêbado da cidade vai me respeitar mais. Os bandidos já deixaram de respeitar a polícia faz tempo.
Fui pensar em bandido e a raiva foi esquecida. Vou até o banheiro para reler o bilhete:
“Benê,
Gosto muito de você, você é bom pai e bom marido.
Tomei a decisão de partir porque me apaixonei pelo palhaço do circo, fugi com ele.
Depois de tanto tempo casada com você, minha vida ficou um tédio só. Faltava aventura.
Não me queira mal. Fiz isso por te respeitar e não querer te botar chifre morando na mesma casa que você.
Diga para as crianças que mamãe ama muito eles e que quando passar a raiva do papai eu vou ver eles.
Um grande beijo,
Cidinha.”
Tem respeito por mim o caralho, nem os bêbados me respeitam mais. Trocar um sargento da PM por um palhaço de circo mambembe.
Droga, distraído e joguei o bilhete no vaso e dei descarga.
Não preciso mais dele, já sei de cor.
Meu Deus, o que fazer?

Mato a desgraçada primeiro e depois capo ele ou capo ele e depois mato ela?

sábado, 18 de julho de 2009

O último fracasso

humberto o sousa

Ele olha para o céu noturno e se sente pequeno, finito e insignificante.
Olha para o passado e vê que a sua vida foi uma série de fracassos, desilusões e atos insignificantes e não há perspectiva de que o futuro seja melhor.
Senta-se no parapeito, uma garrafa de café e um sanduíche no colo, os pés balançando nervosamente no vazio, e aguarda o amanhecer.
Aos primeiros raios de sol a melancolia transforma-se em arrependimento, não pelo que pretende fazer e sim pela vida que não teve, as loucuras que não cometeu, os porres não tomados e as mulheres que não comeu. Levou uma vidinha burocrática com receio do que as pessoas iriam dizer a seu respeito.
“Minha vida foi uma merda, pelo menos espero ter uma morte apoteótica”.
Este pensamento o deixa feliz, se é que se pode chamar de felicidade a aquele sentimento que era apenas um jato de adrenalina causado pelo pensamento na morte, mas vá lá.
Sente vontade de falar com a mãe, dizer-lhe que a ama, pega o celular e faz a ligação.
-Alô, atende a mãe com voz de sono.
-Oi mãe, sou eu, desculpa estar ligando tão cedo.
-Bom dia filho, eu já deveria ter levantado, hoje é dia de ir ao banco receber a aposentadoria. Ontem fui deitar tarde, teu irmão veio aqui jantar com tua cunhada e os teus sobrinhos.
Pelo tom de voz da mãe ele percebeu que tinha sido um erro ter ligado, mas já era tarde.
-Perdoa mãe, não estava me sentindo bem – era mentira, ele havia esquecido que era aniversário da mãe.
-Mas você deveria ter ligado, ou pelo menos ter pedido pra sirigaita da tua esposa ligar.
-Mãe, foi a senhora que me apresentou ela dizendo que daria uma excelente esposa. Só me casei com ela para te ver feliz.
-Nora é a tua cunhada, que sempre ta ligando para saber se não preciso de nada e filho é o teu irmão que vem me ...
Ele desliga o telefone, não queria continua ouvindo a cantilena da mãe pela enésima vez.
Ele toma café e come o sanduíche enquanto observa o viaduto lá embaixo, já é quase oito horas e, em breve, alguém o veria sentado no topo do prédio, apontaria e chamaria a atenção dos pedestres, alguém ligaria para os bombeiros e outro para os canais de televisão. Os carros parariam e os ocupantes desceriam para observar. Ele pararia a cidade.
Nove horas, a aglomeração lá embaixo está enorme, helicópteros da policia e das televisões circulam o edifício e, ao longe, ele houve a sirene dos bombeiros. Ele vira-se, senta dando as costas para o vazio e olhando para a porta de acesso ao topo do prédio, não queria ser pego distraído.
O celular toca, é o seu irmão.
-É você mesmo que estou vendo pela televisão?
-Sim sou eu mesmo - ele responde com satisfação, pela primeira vez recebia mais atenção do que aquele filha da puta. Te amo, dê um abraço de despedida na Mara e beije as crianças por mim.
Desliga.
Lá embaixo ele ouve as sirenes sendo desligadas, eles chegaram. Quando os bombeiros abrirem a porta ele, dramaticamente, jogara o corpo para traz e será o fim, nada de ficar perdendo tempo dialogando com eles.
Celular toca de novo e é a esposa.
-Teu irmão ligou. To te vendo na televisão. Pare de frescura e venha imediatamente para casa.
-Sim amor.
Desliga bem na hora que a porta se abre e ele salta para frente.
Abre os braços, mostra aos bombeiros a garrafa térmica e diz:
-Desculpem, só sentei aqui para comer meu lanche. Alguém poderia me levar para casa?

terça-feira, 14 de julho de 2009

Talvez

humberto o sousa

Ela estava feliz.
Corria com um sorriso maroto estampado na face. Ela possuía somente treze anos e corria, com seu sorriso, fugindo para o futuro, tendo em mente a última façanha.
Talvez se não fosse boa aluna não teria recebido aquela medalha, acompanhada de um prêmio em dinheiro.
Talvez se, tivesse paciência, esperado a mãe chegar do trabalho para lhe contar a boa notícia o destino teria lhe sorrido mais que o seu sorriso feliz.
Talvez se, no cruzamento à frente, houvesse seguido reto para onde sua mãe trabalhava até dois meses antes, o destino teria lhe reservado mil medalhas.
Talvez se aqueles dois rapazes houvessem sido tão bons alunos quanto ela, não estariam assaltando a casa lotérica bem na hora que ela estava passando correndo com o seu sorriso feliz.
Talvez se o policial, que estava fazendo uma aposta, fosse mais bem treinado não teria sacado a arma e, correndo, sem nenhum sorriso no rosto, começado a atirar para todos os lados.
A menina que corria caiu, ainda sorrindo, com os olhos abertos. No chão ficou como quem olha o azul do céu. Em seu peito desabrochou uma flor vermelha de sangue, destacando ainda mais a sua medalha.
Os jornais dirão que foi mais uma vitima de “bala perdida”, não mencionarão seu sorriso nem sua medalha.
Em uma história de muitos talvez, somente uma certeza: não existe “balas perdidas”. Existe somente a incompetência e o desprezo pela vida.

domingo, 5 de julho de 2009

Sandálias havaianas e a mulher brasileira - Crônica

Muitas pessoas que me conhecem estranham o fato de que não uso sandálias havaianas, somente imitações.
O fato é de carater pessoal e não financeiro.
O motivo: há alguns anos atrás, a dita sandália, veiculou pelas televisões de todo o pais uma peça publicitária incrível, bem produzida, utilizando uma belíssima música de Benito de Paula, "Mulher brasileira".
No tal comercial, ao som da música, desfilavam, em situações em que, necessariamente, elas estariam trajadas sumarissimamente, belas mulheres, sorridentes, felizes e jovens: na praia, na piscina, passeios de lancha, etc., todas com chinelos havaianas.
Depois de assistir umas três ou quatro vezes notei que no meio das beldades não havia uma negra sequer, nem mesmo uma mulata, e que, em sua maioria, as "mulheres brasileiras" eram loiras.
Com certa surpresa descobri, que para os produtores do comercial, as mulheres negras:
a) não ficam bem em trajes sumários;
b) não eram belas;
c) não sorriam e não eram felizes;
d) não iam a praia, piscina e não passeavam de lancha;
e) não usavam sandálias havaianas; e, para minha perplexidade,
f) as negras brasileiras não eram consideradas, por eles, "mulheres brasileiras".
No principio fiquei horrorizado, depois com raiva e, finalmente, senti desprezo. Desprezo pela fábrica da marca que aprovou a peça publicitária, pelo responsável por sua criação e seus produtores.
Em revolta deixei de usa-las.
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quinta-feira, 2 de julho de 2009

O "Predador da Zona Norte" - conto

humberto o sousa
A polícia estava em polvorosa, mais de doze agressões. Foi até criada uma “Força Tarefa”.
Ele atacava os consultórios odontológicos de mulheres dentistas no final do expediente, então a polícia catalogou todos os ditos consultórios, bem como o horário de fechamento, que passaram a ser monitorados por policiais civis em viaturas descaracterizadas com o apoio tático da policia militar.
Tudo isso porque a vítima número onze era a sobrinha de um Desembargador, que cobrou uma ação enérgica do governador. Claro que a Dra. Sobrinha não foi atacada diretamente, era mais feia que briga de foice no escuro, mas foi amarrada e amordaçada enquanto a sua auxiliar era brutalmente estuprada em sua presença. A Dra. Sobrinha ficou traumatizada, fechou a clinica e os policiais comentavam que foi por não ter sido ela a brutalmente estuprada.
Talvez por instinto, ou espírito de preservação, o estuprador, batizado pela imprensa sensacionalista de ”Predador da Zona Norte”, que quase foi preso no décimo segundo ataque, mudou de tática. Com uma boneca de pano cuidadosamente enrolada em um cobertozinho, dizendo que a sua filhinha estava com quarenta graus de febre, convenceu uma pediatra a reabrir a clinica para atendê-lo, e não deu outra. Alertados pelos funcionários da padaria localizada ao lado da clinica, que ouviram gritos, os policiais invadiram o estabelecimento e pegaram-no em flagrante, só de meias e camiseta, montado em cima da Dra. Japonesinha, totalmente nua, que era espancada violentamente com socos no rosto.
O “Predador” foi levado, depois de ser obrigado a se vestir entre tapas e safanões, para a delegacia do bairro e a vítima entre a vida e a morte, mas ainda nua, levada pelo helicóptero ambulância dos bombeiros diretamente para o Hospital das Clinicas.
...

A noticia da prisão do estuprador “vazou” para a imprensa e quando a viatura chegou com o preso, a delegacia estava cercada por repórteres, cinegrafistas e caminhões das grandes redes de televisão. Levaram quase dez minutos para atravessar o ultimo quarteirão até o distrito.
Os policiais desembarcaram e escoltaram o individuo para o interior e o trancaram em uma sala, dois deles, mais exaltados, pediram e foram atendidos, se trancaram junto e o que se passou lá dentro é um segredo profissional.
Uma hora depois o coitado andando com dificuldade foi levado à presença do Sr. Bacharel (Bel para os íntimos) de Direito Doutor Delegado e o escrivão para ser tomado o depoimento e o Dr. Delegado perguntou-lhe se o sangue que lhe cobria a camiseta era da vitima.
-Não seu dotô, é meu mesmo.
-Você será levado para o IML para fazer o exame de corpo delito, se você falar que os ferimentos que causaram este sangramento foram feito por algum policial você estará se complicando ainda mais.
-Num vô não seu dotô, us policia só me bateram nas minhas partes cum todo cuidado pru modi num machucá. Quem tirô sangue deu foi a dotora.
-Então foi por ela ter te machucado é que você quase matou ela na porrada.
-Não senhor.
-Então foi por quê?
Ele não responde, fica olhando para as mãos com os olhos distantes. O delegado pergunta para o escrivão qual era o nome do infeliz, já que ele tinha qualificado o criminoso.
-Olha Nerso ...
-Pode me chamá de Nercim.
O delegado querendo parecer amigável concorda, ele teria que fazer o cretino confessar tudo, os doze ataques anteriores e o ataque e a agressão atual, não poderia ficar esperando depoimento das vítimas, que envergonhadas, não apareceriam.
-Olha Nercim, você estuprou doze mulh...
-Num foi esse tantim não, foi mais.
-Quantas?
-Sei dize não, só sei qui foi um montão, quase uma por semana desde que vim pra São Paulo.
-E há quanto tempo você mora aqui?
-Quasi um ano.
O escrivão solta um assobio involuntário enquanto o delegado solta um palavrão. Mais uma vez a polícia seria esculhambada por não ter descoberto este maníaco antes. Volta a falar com o tarado à sua frente fingindo uma calma que não sentia, sentia mesmo era vontade de pegar este cretino e pendurá-lo pelos bagos e enviar-lhe todo um cabo de vassoura no rabo.
-Depois, quando eu tomar-lhe oficialmente o depoimento, você falará das outras. Voltando ao assunto da agressão física, quero saber, só por curiosidade, por que você agrediu a pediatra e não as outras. Você usou e abusou delas, mas não agrediu nenhuma fisicamente. Porque somente esta?
-Aconteceu um uns troço isquisitu. Quando eu entrei nela ela começou se mexer e me mordeu, rancó pedaço, aí eu dei um tapa nela e a xota dela começou a ispremé meu pau, foi tão gostoso, aí ela cumeço a ranhá minhas costas cum as unha, eu bati di novu e ela mi ispemeu di novu e começo gritá “bati mais, bati mais ...”. Mi impoguei e comecei a dá uma sova bem dada nela aí us pulicia chegaram e me prendeu.
Curiosidade resolvida, o Dr. Delegado começa a tomar o depoimento, omitindo naturalmente que a Dra. Japonesinha gozava quando apanhava.
...

O Dr. Delegado teve que pedir adiamento para a conclusão do Inquérito por duas vezes, tinha que pegar o depoimento da Pediatra. A coitada, em trinta dias, passou por cinco cirurgias plásticas para reconstituir o maxilar, a mandíbula e o nariz, fora os implantes dentários, havia perdido dois dentes.
Quando finalmente conseguiu autorização dos médicos para tomar-lhe o depoimento a filha-de-uma-puta falou que o sexo fora consensual e a agressão foi acidental.
O que injuriou mais o Dr. Delegado foi saber que ela havia contratado advogado para o tarado e iria depor como testemunha da defesa.
Não adiantou muita coisa o tal advogado caro. Dos trinta e oito casos apurados pelo Dr. Delegado (no início prostitutas de rua, depois empregadas domésticas da periferia que levantavam de madrugada para trabalhar nos bairros nobres e finalmente dentistas), dezessete das vítimas testemunharam e o infeliz foi condenado a uma pena que beirava a eternidade, ou seja, ficaria preso somente trinta anos.
...

Seis meses após o julgamento, jantando com um colega que trabalhava na cidade em que se localizava o presídio que servia de residência permanente para o “Predador”, o Dr. Delegado recebeu uma noticia que o deixou mais puto ainda: a Dra. Japonesinha tinha se mudado para uma cidade vizinha, conseguiu um emprego de Pediatra da prefeitura e havia entrado com um pedido para visitas intimas.

Ilustração: http://www.imotion.com.br/imagens/details.php?image_id=6554

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Incesto

Conto de Divina Scarpim

Eu seduzi meu pai. Ele não foi o cachorro nojento que são os pais que abusam de suas filhas por excesso de álcool e falta de caráter. Foi o homem que amei desde sempre e que me amou para sempre amando a ela em mim. Ele foi a pessoa mais fiel e apaixonada que existiu. Não contei nada a ninguém e nunca contaria não fosse coisa tão antiga, que já não importa mais, e se não fosse a presença constante da dor que sempre esteve comigo desde que soube que viveria sem ele todos os dias de vida que me restavam.

Eles descobriram quando estudaram na mesma turma, aos 16 anos, que tinham muita coisa em comum. Haviam nascido no mesmo dia e na mesma hora no mesmo hospital. O nome da mãe dele era o mesmo nome da mãe dela, o nome do pai dela era o mesmo nome do pai dele. Na primeira meia hora de conversa não conseguiram encontrar muitas diferenças entre eles além dos sobrenomes, continuaram procurando. A procura os tornou amigos e se pesquisaram com a paixão de estarem descobrindo a si mesmos. Tanto se afundaram cada um na personalidade do outro que se apaixonaram e o amor deles era eterno porque cada um amava a si mesmo no outro que amava. Ela engravidou e se casaram. Tinham 18 quando eu vim e ela foi. O pedaço dele que era ela se perdeu e ele quis perder-se também. Segurou-se em mim e sobreviveu. Eu me tornei o pedaço que lhe faltou.

Minha infância foi linda. Tinha todo o seu tempo livre. Poucas vezes soube de alguma namorada, algum caso que ele tivesse nesses anos todos. Sua sinceridade para comigo era total. Não havia segredos, não havia perguntas sem respostas, não havia medo. Quando perguntei de minha mãe ele não disse que ela foi pro céu, não disse que foi fazer uma longa viagem. Disse apenas que morreu. Quando perguntei o que era morrer ele me disse que não sabia muito bem, disse que todas as pessoas e animais um dia deixam de existir, alguns quando já são velhos, outros ainda jovens. Contou-me o que algumas pessoas acreditavam sobre a morte, a opinião de algumas religiões, e quando perguntei em que ele acreditava me disse que não sabia, que gostaria de acreditar em alguma dessas religiões mas não conseguia. Que eu poderia decidir depois, quando fosse maior, em que acreditar. Dizia tudo com tanta sinceridade, com tanta clareza que nada era difícil de compreender. Ele era transparente e seus sentimentos nunca ficavam escondidos para mim. Quando fui à escola ele me levou pela mão e me disse que se eu tivesse alguma dificuldade ele viria me defender. Não precisei ter medo de nada e nunca me senti insegura porque sabia sempre e o tempo todo que podia contar com ele.

Deixava sempre livros pela casa, livros coloridos e ilustrados onde eu podia ver tudo que era vida, natureza, história. Deixava livros de ciências para que eu começasse logo a aprender como era o corpo humano. Nunca me proibia de mexer em alguma coisa. Tudo na casa era meu e nada me era vedado. Fez com que o que era difícil se tornasse fácil, não me assustava a matemática nem a gramática. Não me assustavam as provas nem as crianças maiores do que eu. Ele me punha no colo e me dizia como tudo era lindo e como saber fazia bem, me beijava a testa e me dizia que me amava e que por isso me protegeria sempre. Nunca me falou de bicho papão e quando perguntei o que era me disse que era uma invenção de algumas pessoas que gostavam de assustar crianças. No natal me dava presentes e me ensinou que Papai Noel é alguma coisa que deveria existir. No dia da minha primeira menstruação fez um chá para sarar minha cólica e disse que o que estava acontecendo comigo era a única coisa no mundo que ele conseguia chamar de milagre.

Não sei como começou, não consigo definir a data, sei que quando comecei a entender o que era sexo e comecei a desejar estar com um homem, o homem era ele. Passei a espioná-lo e via sua nudez com deslumbramento. Desejava toca-lo e ser tocada par ele. Sentia ciúmes de toda mulher que o olhasse, procurava sempre dizer que o amava, abraçá-lo e beijá-lo.

Fui insidiosa, sedutora de tal forma que cheguei a apavorá-lo, mas eu o amava e precisava estar com ele. Procurei conversar assuntos mais sérios. Estudei. Falei com ele sobre literatura, filosofia, física e biologia; falei sobre história, religião, ciência; fui divertida, inteligente, agradável. Aprendi a jogar xadrez, tênis e vôlei de praia para ser parceira dele em todos os momentos. Ele só sentia falta de outra mulher quando pensava em sexo. Eu providenciei para que nesses momentos ele também começasse a pensar em mim.

Um dia nos beijamos, foi o primeiro beijo de homem e mulher. Eu o provoquei, é claro. Estávamos em férias em um hotel fazenda e ele foi ao meu quarto deixar minha mala, convidei-o para ir à piscina, provoquei uma competição de nado, mostrei os dois biquínis que trouxera e pedi sua opinião sobre qual deles seria mais confortável para que eu o derrotasse, ele brincou que nem com pés de pato eu ganharia dele, eu disse sim, ele disse não, eu chequei mais perto e o beijei. Ele correspondeu e depois saiu correndo do quarto dizendo “Meu Deus o que foi que eu fiz?”

Eu me vesti, coloquei uma saída de praia e bati na porta do quarto dele perguntando se já estava pronto para ser derrotado. Ele demorou um pouco mas saiu e fomos nadar como se não tivesse acontecido nada. Na hora do jantar eu entrei no assunto para dizer que o beijo tinha sido por culpa unicamente minha e que eu o fizera porque o amava. Ele tentou rebater meus argumentos, tentou mesmo! Tentou até fugir de mim, chegou a afirmar que talvez fosse bom que a gente se afastasse, depois propôs que eu fosse estudar em outra cidade, ele alugaria um apartamento pequeno para mim e a gente se veria nos finais de semana, eu teria tempo para pensar melhor e descobriria, convivendo com rapazes da minha idade, que estava cometendo um erro, que aquilo tudo era loucura. Afirmou que me amava muito, muitíssimo mesmo, mais até do que ele poderia por em palavras, mas não poderia nunca me amar daquela forma, estava errado, não podia acontecer nunca, seria um crime. Enfim, ele se justificou, explicou, usou todos os argumentos que a lei e a ética defendem e eu continuei afirmando que meu caso era diferente. Fui pra faculdade em outra cidade, tive um apartamento pequeno e agradável e via-o todo fim de semana.

Todas as vezes que a gente se via ele me perguntava sobre namorados, todas as vezes eu respondia que o único homem do mundo que me interessava era ele. Uma noite falamos muito e bebemos bastante no restaurante próximo do meu apartamento, eu o convenci a subir para pegar uma conta que precisava ser paga e me aproveitei da fragilidade dele. Ele tinha acabado de terminar um romance, estava sensível e vulnerável, eu me aproveitei e acabamos fazendo sexo. Ah, como foi mágico! O beijo já tinha sido algo fantástico, o sexo foi o superlativo dele. Desde aquele dia, todo fim de semana ele dormia comigo. Foi tão bom quando ele finalmente se entregou! Ficávamos na minha casa, ficávamos na casa dele, nas férias viajávamos. Tudo era perfeito! Se ele dizia alguma coisa que denotasse seus sentimentos de culpa eu o dissuadia afirmando novamente e novamente, de forma sincera e convincente que ele jamais me seduzira, que ele jamais cometera crime nenhum, tudo foi iniciativa minha e o que estávamos vivendo era tudo que eu queria na vida. Ele então se deixava amar e retribuía meu amor como um amante, um namorado, um amigo.

Nosso único problema era não permitir que ninguém descobrisse, então inventei um namorado, ele inventou uma namorada e sempre usávamos esses dois personagens fictícios em nossas conversas com estranhos.

Fui feliz. Fomos felizes. Tão felizes que duvido muito se alguém no mundo foi sequer um dia tão feliz quanto fui por anos. Mas ele ficou doente, um tumor na cabeça o tirou de mim rápida e dolorosamente e, quando ele morreu, meu único consolo foi poder chorar e chorar muito sem ter que esconder de ninguém a minha tristeza. Para o mundo eu era uma filha sofrendo a perda de um pai, para mim mesma era muito, muito mais do que um pai que estava perdendo, era toda a minha possibilidade de ser feliz que se ia para sempre.

Eu estava certa. Muitas vezes mais chorei. Nunca mais fui feliz mas nunca me arrependi. Se tivesse resistido aos meus sentimentos, se não o tivesse convencido a aceitar os dele, se o não tivesse transformado no meu amor, certamente não teria hoje meu único bem: a lembrança da felicidade que tive...


Postado originalmente em "Vida Cadela" :
http://vida-cadela.blogspot.com/2009/06/incesto.html

domingo, 7 de junho de 2009

A troca

humberto o sousa

Aquele era um daqueles dias em que nada deu certo e para encerrar o dia chegou atrasado na faculdade, perdendo a vaga do estacionamento, próximo ao prédio principal, tendo que estacionar na extremidade oposta.
Contrariado, estava pegando seu material quando ouviu um carro estacionando ao seu lado e o motorista, antes de desligar o carro, deu uma pequena acelerada, isto fez com que tivesse um início de ereção e, somente então, virou-se para olhar para o veículo ao lado.
O carro era um Passat de uns trinta anos, de cor cinza que o fazia pensar em geladeira e que parecia ter sido pintado a pincel. A motorista era uma mulatinha de traços miúdos, nariz fino e arrebitado e os cabelos, cortados chanel, alisados e tingidos de castanho claro.
Ele descobriu que estava apaixonado, pegou suas coisas correndo e saiu atrás dela. Ela era baixinha, tinha passos curtos e ligeiros e, com os pés levemente voltados para dentro, possuía um rebolado duro (com uma bundinha que gritava para o mundo “tenho, mas não te dou”). Decidiu que tinha que descobrir onde era a sala dela, qual o seu nome, o curso que fazia, ele tinha que falar com ela, tinha que lhe fazer a oferta.
Na saída, decepção, a vaga ao seu lado estava vazia, ela já tinha ido.
Nos dias seguintes, ele passou a chegar cedo, mas em vez de estacionar em sua vaga habitual, parava lá no fim do estacionamento e ficava esperando. Ela chegava sempre no mesmo horário, estacionava no mesmo lugar, a mesma acelerada antes de desligar (o que fazia com que ele tivesse ereções), o mesmo caminhar ligeiro de rebolado duro (“tenho, mas não te dou”). E ele a seguia.
Descobriu que se chamava Mariana, tinha 22 anos, estava no 3° de Matemática (ele não a tinha visto antes porque veio transferida de outro campus recentemente), no intervalo, na lanchonete, sempre comia uma esfiha com bastante molho de pimenta e tomava uma coca.
Uma semana depois ele tomou coragem e foi até ela – “Posso te pagar uma coca?”.
- Sim – Sua voz era suave e agradável.
Aproveitou e pagou-lhe também a esfiha e gentilmente foi buscar o molho de pimenta.
Na saída, ele já a estava esperando para acompanhá-la até o carro, e se ofereceu para carregar a sua pesada pasta. Ela timidamente aceitou. Caminharam lentamente até o carro dela, conversando sobre o tempo, sobre os respectivos cursos, sobre as expectativas para o futuro (ela iria ser professora de matemática como a mãe). Quando enfim chegaram aos carros ele lhe disse –“Amanhã e sexta feira, que tal se depois das aulas nos fossemos tomar alguma coisa?”.
- Adoraria, mas só se dividirmos a conta.

O dia seguinte passou lentamente, a ansiedade fez com que as horas não passassem.
Chegou mais cedo que o habitual ao estacionamento e quando ela enfim chegou, vinha com a mãe, que, apesar de branca e loira, era uma cópia envelhecida dela. Alguém já escreveu que para sabermos como será nossa esposa daqui a vinte ou trinta anos devemos olhar para a futura sogra, e ela quando estivesse com uns quarenta anos ainda seria desejável. Despediu-se da mãe, que levou o Passat embora, e foram caminhando, calados, sem nada para dizer um ao outro até o prédio.

Na saída ela já estava esperando, pegaram o carro dele e foram a um barzinho fora do circuito dos estudantes, ele não queria que nenhum conhecido atrapalhasse a conversa que ele tinha que ter com ela.
Depois de duas rodadas de chope, com ela já bem alegre, ele resolveu que era chegado o momento: “Olha Mariana, você deve ter notado que desde que nos vimos pela primeira vez eu tenho demonstrado certo interesse”.
-Eu também, sinto algo desde que te vi pela primeira vez.
Então fez a proposta.
Ela o olhou com os olhos arregalados, não acreditando no que estava ouvindo e sem nada melhor para dizer só perguntou - Pra que?
Contou seus motivos, e ela com lagrimas nos olhos, negou-se com veemência. Ele insistiu.
Ela disse que precisava falar com a mãe, pedir permissão, ele estranhou, mas concordou. Ela levantou e afastou-se da mesa, pegou o celular e, após teclar, começou a falar em voz baixa, tapando com a mão em concha o bocal para abafar o som do ambiente, concordou com a cabeça com algo que a mãe disse e passou-lhe o celular.
“Alo”.
-Por que você deseja trocar um carro praticamente novo por um de trinta anos caindo aos pedaços? Perguntou-lhe a voz autoritária do outro lado.
“Olha, eu sempre quis ter um como este e quando ouvi o som do motor do carro da Mariana sabia que era o que estava esperando”.
-Por que você sempre quis ter um carro como este?
“Eu sei que você deve estar estranhando, trocar um carro de dois anos por um de trinta, assim sem mais nem menos, mas é sonho de infância, ter um Passat verde musgo, teto solar e rodas de liga leve, claro que terei que reformá-lo, mas isso não vem ao caso”.
-Com o dinheiro que você iria gastar não seria o caso de comprar um já pronto, não sairia mais barato?
“A senhora não entende, foi o som do motor”.
-Uma última pergunta, a Mariana tem a mania do pai dela, acelerar o carro antes de desligar, foi isso que chamou tua atenção?
Ele concordou.
-O meu falecido marido tinha a mesma mania, quando ouvi pela primeira vez me apaixonei, só que pelo motorista e não pelo carro, me deixa falar com minha filha.
Devolvi o celular para Mariana, ela ouviu atentamente o que a mãe lhe dizia e desligou, virou-se para ele e disse – Me leve para casa.
O percurso foi feito em um silencio constrangido.
-Tenho que te contar uma coisa, disse ela quando chegaram ao prédio em que ela morava enquanto ele olhava o Passat.
-Não posso me desfazer desse carro, foi o primeiro carro que meu pai comprou, quando conheceu minha mãe era esse carro que ele dirigia e, segundo minha mãe, fui gerada no banco ai atrás. Meu pai sempre dizia que não podia vender por causa disso, e deixou-o para mim.
Minha mãe acha que isto é besteira e que devo aceitar.
“Olha, vou cuidar bem dele”.
-Tudo bem então, mas com uma condição, quando acabar a reforma quero que você me leve para dirigi-lo um pouco.
Ele concordou e eles trocaram as chaves e os documentos
Enquanto ela se dirigia para o portão de entrada do prédio, ele ficou acompanhando com os olhos aquele rebolado “tenho, mas não te dou” dela.
“Bem, até que ela não é de se jogar fora e este banco traseiro parece confortável”.